Big Bang capitalista afeta PAC lulista

O sistema capitalista está em risco, porque a sua parte podre, a dominação especulativa, geradora de renda para a parte boa sobreviver, ou seja, a parte produtiva, entrou em colapso com a implosão dos bancos, que financiaram os setores imobiliários nos Estados Unidos e na Europa, agora, envolvidos em bancarrota, levando de roldão o sistema bancário. Os ricos estão empobrecendo. Já foram jogados na fogueira da especulação 1,5 trilhão de dólares, valor correspondente a dois PIBs brasileiros. E, ainda, o fogo continua alto, requerendo doses maciças de socorro dos bombeiros, os bancos centrais, cuja convicção na tarefa de eliminar as chamas é, por enquanto, inexistente. Joga-se no escuro. Como fica o Brasil, nesse contexto? Apesar das autoridades se mostrarem excessivamente otimistas, uma coisa é certa: o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC – com o qual o presidente Lula pretende continuar dinamizando a produção, para gerar suficiente poder de confiança, capaz de permiti-lo fazer sua sucessora predileta, na eleição presidencial, em 2010, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, pode, junto com a economia global, desacelerar-se, também. Dez bancos de peso, na Europa e Estados Unidos foram para o buraco e os preços das ações dos 50 principais oligopólios financeiros e produtivos – mais fortes que muitos governos juntos – que valorizaram, no mercado, nos últimos cinco anos, caíram em torno de 90%, nas últimas semanas, demonstrando que tanto a produção como a especulação estão no mesmo barco. Simplesmente, viraram pó. O cassino financeiro global, que estava produzindo renda como coelhos se reproduzem, com a utilização do chamado mercado derivativo, em que moeda se torna parideira de moeda, sem que haja lastro real, deixou de funcionar nas duas praças econômico-financeiras mais poderosas, européia e americana. Está sinalizada a recessão forte, que afetará, globalmente, a todos, já que a interdependência financeira é um dado concreto da realidade global mutante em processo de aceleração destrutiva. Não foi possível suportar a dose de loucura que o capitalismo financeiro imprimiu às ações ultra-especulativas ao longo dos últimos cinco anos, no mercado imobiliário. Repetiu-se a mesma manobra que aconteceu nas grandes jogadas ousadas, que visam ganhar dinheiro fácil, sendo a maior experiência histórica, nesse sentido, a grande crise de 1929. Naquele ano fatídico, em outubro, o mercado emitia papel que era caucionado por valorizações especulativas do próprio papel, de modo a permitir novas compras de papéis, acompanhadas de seguidas sobrevalorizações especulativas, de modo a caucionar mais papéis podres, e assim por diante, até a implosão. Assim que os preços despencaram, os aplicadores não tiveram dinheiro para pagar suas contas. Muitos subiram nos últimos andares dos edifícios de Nova York e outras praças, para saltarem de cabeça, desesperados.

Momento de loucura do capital

A cena se repete, dramaticamente, agora, sem maiores suicidios, mas com grandes quebradeiras. Os aplicadores compravam suas casas com empréstimos bancários, as casas, inicialmente, tinham seus preços valorizados, tal valorização servia de caução para levantar novos empréstimos, a fim de comprar mais casas e apartamentos, até que o mercado sinalizou excesso de casas, ou seja, de bananas, no mercado, que começaram a apodrecer, jogando os preços para baixo. Quando a maioria dos compradores foi vender esses ativos, para pagar as prestações, os preços deles estavam pela metade ou menos, quantia insuficiente para quitar os papagaios bancários, acrescidos dos juros. Falência geral.
Nesse ambiente, de falência, os bancos cortaram o crédito e as indústrias, comércios e serviços, sem o oxigênio creditício entraram em desaceleração. Evidenciou-se que deixou de funcionar o mecanismo que mantém a economia capitalista mundial ativada, com os Estados Unidos desempenhando, historicamente, desde o pós-segunda guerra mundial, o papel de consumidor global maior, prioritário, a partir de emissão de papel moeda sem lastro, para, com seus deficites comerciais, gerar superavits comerciais nas demais economias do mundo.
Os bancos, desconfiados da inadimplência generalizada, resistentes a continuar o jogo do crédito direto ao consumidor, somado às desconfianças generalizadas dos consumidores, que, super-endividados, sem poder pagar suas prestações, em face das desvalorizações violentas dos seus ativos imobiliários, suspenderam as compras, perderam a função precípua do sistema bancário, simplesmente, porque começaram a falir.
A roda da fortuna havia quebrado. Se continuasse a situação como ficou, diante da falência dos consumidores endividados, o dominó da quebradeira se tornaria irresistível. O governo americano teve que entrar em campo, para praticar o discurso econômico que prega para os outros, mas não para si mesmo, ou seja, decidiu estatizar os principais agentes financeiros do setor imobiliário americano e a maior agência de seguros bancários do mundo. Já, outros bancos, também, importantes, nas áreas de investimentos, que estavam pela hora da morte, foram empurrados, sem dó, para a cova. Os bancãos viram banquinhos no correr da bancarrota financeira global.
O pânico se genralizou, até que, na madrugada de sexta-feira, o governo americano, exausto, abriu o bico e pediu água. A Casa Branca percebeu que, sozinha, não daria conta do recado. Solicitou socorro aos seis principais bancos centrais do mundo, para tentar salvar o capitalismo. Foram, emergencialmente, injetados mais 250 bilhões de dólares, para tentar acalmar o maremoto financeiro neoliberal, tocado pelo dólar derivativo, o derivodólar derivodoido, que ameaça virar papel de parede.
Ficou claro: o unilateralismo norte-americano, que emergiu depois da guerra fria, em  1989, colocando os Estados Unidos como o bam-bam-bam do mundo capitalista, dá lugar, com a coordenação financeira global, ao multilateralismo político e econômico global, demonstrando a redução do poder relativo do império americano no mundo. A Roma moderna está mais fraca.

Brasil na roda da loucura

A crise é, apenas, americana e européia, sem maiores transtornos para o Brasil, como tenta vender, de formar ufanista, o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no auge da loucura especulativa implodida? Mentira.
A economia brasileira, igualmente, corre perigo, e pode ser fortemente afetada, apesar de o colchão de segurança contra ela ter sido dado com o aumento do consumo interno, que evitou desvalorizações cambiais aceleradas, nos últimos anos, para elevar exportações, como forma de desovar estoques internos inconsumíveis, graças à péssima distribuição da renda nacional.
Os programas sociais, bombados com dinheiro público, keynesianamente, valorização do salário mínimo,  aumento dos gastos com previdência e expansão do crédito a juro alto, minimizaram o problemas. O governo colocou poder de compra estatal nos cartões de crédito de alimentação dos pobres para consumirem os excedentes internos. Com isso, evitou desvalorização cambial e provocou o seu contrário, sobrevalorização do câmbio, permitindo, assim, combate à inflação, embora o real sobrevalorizado, em contrapartida, tenha, graças aos juros altos, elevado a dívida pública interna, perigosamente, transformando-a em freio efetivo ao crescimento sustentável.
O perigo maior, agora, está à mostra. O dinheiro valorizado inviabiliza as exportações nacionais, em ambiente de elevada competição global, e provoca deficit em contas correntes, pois as importações crescem mais do que as exportações, no compasso do PIB avançando 6% no segundo trimestre do ano. Somente nos dois últimos meses, o deficit aumentou em 2 bilhões de dólares. Estima-se que, nesse ano, poderá aproximar-se dos 2% do PIB, algo em torno de 30 bilhões de dólares, enquanto, no ano passado, registrou-se superavit de 3 bilhões de dólares. Vale dizer, não há tranquilidade, mas preocupação.
A desaceleração da economia mundial, a partir da redução do consumo nos Estados Unidos, dado pelo freio consumista pelas famílias endividadas, já está se fazendo sentir na redução dos preços do petróleo e das matérias primas e metais, que dinamizam a produção de manufaturados. Sendo estas as matérias primas que mais engordam os saldos comerciais brasileiros, ao despencarem os seus preços, ocorrem, prejudicialmente, deficits, cujos efeitos, aos olhos do mercado, são perigos para saúde da moeda.
O real, nessa batida, estaria seguro, para valer, ou, também, poderia se tornar candidato a sofrer uma corrida especulativa?
O ufanismo governamental, nesse momento, diz que essa possibilidade está afastada, já que o Brasil estaria, suficientemente, garantido por suas reservas de mais de 200 bilhões de dólares. O que seria essa quantia, significativa, sem dúvida, diante dos 1,5 trilhão de dólares que já foram torrados na fogueira especulativa global do sistema neoliberal que está perdendo sua utilidade?  Praticamente, muito pouco.

Mundo da moeda apodrecida

O fato, como ocorreu em situações semelhantes, bem menos destrutivas de capital, que se encontra sobreacumulado na Europa e Estados Unidos, não deixa dúvida: a contração do crédito global, que o governo americano tenta restabelecer, para manter ativa a produção, vai afetar a menina dos olhos de ouro do presidente Lula e da aliança governamental: o Programa de Aceleração do Crescimento. Não dá para tapar o sol com a peneira.
O PAC, que precisa, para colocar em dia as previsões de investimentos governamentais, de algo em torno de R$ 40 bilhões, por ano, para manter os gastos públicos crescendo acima do PIB, de modo a bancar crescimento econômico de 5% ao ano, tende a perder fôlego. A desaceleração global imporia relativa desaceleração brasileira, com reflexos na redução dos investimentos, da oferta de emprego, do consumo e da arrecadação, que bombeia gastos públicos superiores ao crescimento do Produto Interno bruto, para puxar a demanda global.
Certamente, as especulações contra a moeda, nesse momento, estão exacerbadas, como sempre acontece nos momentos de comportamento de manada, mas pode ser algo temporário, se as reservas acumuladas derem conta do recado, no sentido de estabilizar o preço dela.
Ficaria em aberto outro perigo, se aquele for contornado: as elevadas taxas de juros. Como nos países ricos está ocorrendo a chamada eutanásia do rentista, com os governos jogando a taxa de juros para baixo, a fim de evitar recessão, embora correndo o risco de mais inflação, no Brasil, ao contrário, os juros mais altos do mundo tenderiam a atrair os dólares derivativos que estão apodrecendo no compasso da crise bancária internacional.
O dólar derivativo apodrecido, se vier em quantidades excessivas para o paraíso brasileiro dos juros altos, terra brasilis jurista, poderia apodrecer, também, a própria economia, ameaçando, consequentemente,  a vida do presidente do BC, Henrique Meirelles.
A areia movediça está em plena atividade, disposta a engolir os personagens centrais do drama.

Dinheiro empoçou nas praças ricas

Em todas as crise capitalistas, o capital se sobreacumula nos países ricos, que, para livrarem dos prejuízos, canalizam o excesso de dinheiro, que deixa de render no centro, para a periferia em forma de dívida externa. Daí, Marx destacar que a dívida externa representa, fundamentalmente, instrumento de dominação internacional, como alternativa às crises financeiras cíclicas.
A partir dos anos de 1980, como explica Lauro Campos, em “Moeda e mercadoria:metamorfose e crise”(Ed. UnB, 1992), o processo se inverteu. Em 1979, diante do excesso de dólares, eudólares, petrodólares e nipodólares, na economia mundial, acumulados desde o pós-guerra, guerra fria e guerra do Vietnan, lançados na economia, para fortalecer os países europeus e Japão, evitando serem atraídos para o comunismo, os Estados Unidos elevaram a taxa de juros de 5% para 17%, em nome do combate à inflação.
Resultado: a periferia capitalista, que dinamizava a economia mediante dívida externa, tornando-se, historicamente, dependente, faliu, como destaca Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, em “Teoria de dependência”. Os bancos internacionais, que, antes, canalizavam as sobras de dinheiro acumulado, no centro, para os países capitalistas periféricos, trancaram o cofre e chamaram o FMI, que passou a ser capitão do mato, na tentativa de ajustar as economias falidas, mediante orientação do Consenso de Washington, a partir de 1982. A receita ficou famosa: desregulamentação, privatização, corte de gastos e superavits primários elevados, para pagar os juros da dívida. Os empréstimos externos secaram.
O capital acumulado no centro, sem poder descolar-se para a periferia em forma de dívida externa, ficou, mesmo, atolados nos países ricos, dando início a nota etapa de reprodução ampliada do capital, a partir de especulação, não na periferia, mas no centro, mesmo, gerando problemas. A especulação inevitável preparou o campo para os desastres, como reconhece o ex-presidente  do Banco Central dos Estados Unidos, Allan Greenspan, que caracterizou esse período do capitalismo como sendo o da “exuberância irracional”( “A era da turbulencia – aventuras em um novo mundo”, 2007, prefaciado por Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, na Era FHC).
O dinheiro sobreacumulado pela superespeculação no capitalismo cêntrico buscou, na imaginação abstrata, suas formas de reprodução ampliada, por intermédio do esquentamento de negócios, de forma cíclica, até que os mesmos explodissem, deixando rastros de destruição. Aconteceu, nos anos de 1990, no contexto da exuberância irracional, a superespeculação com as empresas ponto.com. As valorizações das ações especulativas serviam de caução para novas ações sobreavalorizadas, da mesma forma que, agora, ocorre com as ações do mercado imobiliário, assim como aconteceu no crash de 1929.
A dívida externa, antes formada nos países pobres, dados os deslocamentos de capital do centro para a periferia, se transformou em fonte de especulação nos países ricos, agora atordoados com a falta de fluxo global dos empréstimos para os países pobres, empobrecidos pela crise dos anos de 1980. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Ricos empobrecem, pobres enriquecem

Os ricos, nesse contexto, estão empobrecendo, porque o excesso de moeda, empoçada pela desconfiança generalizada, perde valor, não exerce mais o papel de impor, via política cambial, deterioração nos termos de troca, relativamente, aos países detentores de matérias primas, das quais as manufaturas mundiais dependem. Por isso, o preço das manufaturas, em excesso, graças ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que aumenta a produvidade, tende a cair, enquanto o preço das matérias primas, escassas, tende a subir. Inverte-se a deterioração nos termos de troca, como destaca o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os ricos ficam mais pobres e os pobres, detentores das matérias primas, podem ficar ricos.
Talvez seja por isso, que o ministro Guido Mantega e o presidente Lula, nesse momento, estejam contando vantagem. Mas, não se sabe se conseguirão rir por último, antes de o quadro de destruição capitalista neoliberal especulativa, esteja plenamente desenvolvido.
Uma coisa é certa, o neoliberalismo foi para o buraco, mas o seu sucessor, o keynesianismo, expresso em gastos crescentes do governo, não está com vida garantida, porque, como demonstra o próprio governo W. Bush, o mercado passou a desconfiar da capacidade de os próprios governos darem conta do recado.
Na Inglaterra, berço do capitalismo industrial, cresce tendência de tentar separar a economia especulativa da economia real, dando tratamento adequado para esta, enquanto aquela será jogada no sal. O problema é que a chamada economia real sob o capitalismo não consegue sobreviver sem a ajuda da especulação, como a história já demonstrou.
Antes, nas crises, os especuladores corriam para o ouro, que era a forma de entesouramento. Depois que o padrão ouro fracassou no final do século 19, entrando em campo novo padrão monetário, apoiado na moeda estatal, que passou a puxar a demanda global, o entesouramento passou a ser feito pelo próprio governo, via endividamento público.
Nesse momento, os especuladores correm para o ouro, que é insuficiente, e para os títulos do governo, entesourador final do processo capitalista, mesmo para ser remunerado com juro negativo. Até quando a saúde financeira dos governos conseguirá enxugar a montanha de dólares derivativos no mercado global, ninguém sabe.
O neoliberalismo foi para o buraco e o keynesianismo deixou de ser solução, para se transfomar, também, em problema. Verdadeiro salve-se quem puder no Big Bang global.