25 set
2008Apocalipse bushiano é jogo de pânico fascista
Cesar Fonseca em 25/09/2008
O tom apocaliptico adotado pelo presidente W. Bush para tentar convencer o Congresso a aprovar o pacote salvacionista de 700 bilhões de dólares para economia mergulhada em crise bancária, caracterizada por sumiço do crédito, oxigênio da produção capitalista, joga estrategicamente com o medo como arma política, algo tipicamente fascista, para alcançar rapidamente seu objetivo. Na prática, é dinheiro podre, sem lastro, para tentar salvar dinheiro podre, que está apodrecendo a vida dos americanos e lançando desconfianças generalizadas do mundo na saúde do dólar, como moeda equivalente nas trocas comerciais globais. A economia de guerra, tocada com dinheiro estatal fictício, bate biela.
Os americanos, nesse momento, estão, certamente, temerosos sobre o futuro da sua segurança pessoal. Vão apostar numa renovação radical, com Barack Obama, o primeiro negro que ganharia a eleição nos Estados Unidos? Ou, com medo, optariam pelo conservadorismo, deixando renovações e mudanças mais ousadas para depois?
O povo da América, que traz, psicologicamente, a certeza de ser o enviado de Deus, do destino manifesto na terra, onde a riqueza é o bônus da benção divina, para a salvação eterna como prêmio pelo lucro acumulado no juro composto, sente o medo do imprevisível, do imponderável, do espectro da pobreza. Quem lhe dá mais segurança, depois que W. Bush espalhou a insegurança geral, Obama ou MacCain?
A classe média, super-endividada nos cartões de crédito, com os quais vai rolando seus papagaios financeiros impagáveis – calcula-se que seja de 15 trilhões de dólares a dívida global das famílias no crediário – , como se tal costume representasse segurança eterna em suas vidas, teme pelo pior.
A segurança do futuro abre-se em seu oposto, em abismo sob os próprios pés. Segurança nenhuma. Os aposentados estão apavorados, pois seus sonhos são jogados no mercado de hipotecas e ações, desde sempre. Pavor coletivo.
W. Bush, em discurso dramático, na quarta à noite, não regateou. Falou em perigo de pânico. Pânico vira estratégia política da Casa Branca.
O presidente que alerta para o pânico quer o quê? Chocar. Amedrontar. O estadista falaria como Churchill:” nada tenho a oferecer-lhes senão suor e lágrimas, sendo a salvação a capacidade de enfrentar a realidade adversa”.
O que propõe W. Bush? Papel podre para combater papel podre, o mesmo papel que está financiando a demanda global puxada pelo consumo americano, bem como ampliando, por sua vez, essa mesma demanda, por meio do aumento de gastos na produção bélica e espacial, jogo keynesiano que vem desde 1936.
O Congresso pôs as barbas de molho, porque sabe que os 700 bilhões de dólares não são suficientes. O FMI adiantou e disse ser a quantia insuficiente. Aposta em 1,3 trilhões.
Ninharia perto do mercado de dólares derivativos , raiz da crise, ainda não contabilizados, que somariam entre 45 trilhões e 55 trilhões de dólares, os chamados “credit default swaps(CDS).
Trata-se de quantia superior a quase 4 vezes o PIB dos Estados Unidos. Os 700 bilhões de dólares bushianos seriam pinto perto dessa montanha fantástica de dinheiro podre que o mercado imobiliário pôs para rodar no mercado derivativo, em que dinheiro pare dinheiro, indefinidamente.
Realmente, o capitalismo derivativo regado pelo derivodólar viajou na maionese. Agora, esburracha-se no chão. Não há fôlego keynesiano capaz de levar o tesouro americano a acalmar a situação com apenas 700 bilhões de dólares. Brincadeira.
A solução(keynesiana) que virou problema
O que já está acontecendo não suporta panos quentes. Pega fogo geral. Mais dinheiro sem lastro para cobrir dinheiro que apodreceu, simplesmente, resultará em inflação e mais inflação.
A bomba de enxugamento do mercado especulativo, a dívida pública, para tentar dar sensação de escassez de moeda, para que esta suba de preço, desviando a desconfiança na sua saúde, mostra-se incapaz de exercitar a tarefa keynesiana.
Keynes não é mais solução, mas, problema, na medida em que o fôlego financeiro de Tio Sam, para enxutar o mercado de derivativos, esgota-se.
Está parecendo a República de Weimar, que tinha um marco-ouro valendo 12 bilhões de marco-papel, quando todos os pepinos foram contabilizados pelo presidente do Banco Central alemão, Hjalmar Schacht, para que a cotação caisse, repentinamente, para 1 marco-ouro = 4,2 bilhões de marco-papel, como passo inicial, fundamental, para inverter a tendência e dar visibilidade ao tamanho da hiperinflação alemã entre 1919 e 1923.
Evidentemente, se os dólares derivativos, os derivodólares, os CDS – “credits default swaps – forem contabilizados, pode pintar uma brutal desvalorização da moeda americana, semelhante à do marco-papel, que obrigaria Tio Sam a submeter-se à receita de Hjalmar Schacht, conforme demonstra em “Setenta e Seis Anos de MInhas Vida”( Ed. 34, 1999).
A dívida pública interna americana, que já não está pagando juro nenhum para vender títulos, teria que enxugar, lançando uma montanha de títulos, que, sem rendimento nenhum, sinalizaria negócio desinteressante para o rentista, que se candidataria ao empobrecimento compulsivo, como se a eutanásia rentista fosse a sua opção fundamental.
Os árabes já estão fugindo desse fantasma, buscando jogar o dinheiro arrecadado com petróleo, isto é, os dólares, em terras e outros ativos mundo afora. Dólar virou moeda quente da qual todos tentam fugir para não se queimar.
As expectativas psicológicas da comunidade, nesse momento, bombada por um sistema de comunicação instantâneo, que a estressa, extraordinariamente, produzem desastres psicológicos que se materializam em sentimentos de frustração e radicalização.
Tal espírito social irascível emerge irresistível, quanto mais aumenta a sensação popular de perda de poder de compra da moeda nacional.
Sim, W. Bush tem razão. Pânico. O titular da Casa Branca utiliza o pânico como arma política. Com essa estratégia tenta forçar a barra, no Congresso, em busca de solução rápida.
Conseguirá? Dificil. Todos os políticos que estão disputando eleição, agora, percorrendo o território americano atrás de votos, subordinam-se aos interesses da comunidade medrosa, que quer reaver suas perdas.
Poder executivo faliu. O Legislativo compensará?
Os movimentos sociais que se manifestam pela internet, fazendo pressão sobre os congressistas, para que sejam equitativos na distribuição dos prejuízos, avisam que se não cumprirem essa determinação social, não terão o voto necessário na eleição, para continuar na vida política.
A pressa que W. Bush exige para tentar movimentar a economia e afastar o fantasma da quebradeira choca-se com a característica essencial do parlamento, ou seja, a necessária falta de urgência para tratar o jogo dos contrários, no debate político.
A divisão da sociedade capitalista em grupos sociais antagônicos impõe, dialeticamente, condição que produz o confronto entre a pressa do Executivo e a não-pressa do Legislativo, na apreciação da crise bancária.
W. Bush joga com a pressa, pois pode ser ejetado, antes de terminar seu mandato, pela ira popular. Já se os congressistas, sob pressa de W. Bush, acionarem decisão que tenha como resultado frustração, deixam de ser acreditados, para serem desacreditados pela sociedade.
A pressa de W. Bush, que tem por trás os poderosos interesses financeiros e oligopolistas, que dominam Wall Street, representa, na prática, uma armadilha para os congressistas e uma má conselheiras, deixando o Congresso diante de dois caminhos: ou render-se ao Executivo ou agigantar-se e tornar-se, na crise, maior que o Executivo.
Pode lançar sementes de mudanças, no médio e longo prazo, no comando do próprio poder político, visto que as lições a serem tiradas dos acontecimentos dramáticos do presente se materializarão em possíveis alterações na correlação de forças no contexto da democracia americana.
O que se vê, na bancarrota financeira americana, não é um desastre do mercado, mas do governo, que deixou o mercado comandá-lo. O Congresso, na prática, está sendo jogado no fogo, para resolver problemas criados pelo Executivo. Qual a fatura que cobrará?
Casa Branca se autocondenou ao render-se ao mercado

Como o governo é executivo, legislativo e judiciário, com distribuição de atribuições de poderes relativos aos três entes republicanos no ambiente da democracia representativa, sua capacidade institucional de comandar o processo econômico tenderia a ser democraticamente contestada.
A destinação constitucional do Executivo para executar poderia ser relativizada com o legislativo que além de legislar poderia, também, executar, como se dá no modelo parlamentarista. As chances do legislativo estão colocadas por W. Bush, desesperado.
O executivo, no governo imperial americano, entrou em crise, porque em vez de disciplinar o mercado capitalista, rendeu-se ao mercado, à especulação, à loucura.
Comanda o caminhão capitalista na ladeira rumo ao precipício sem freio, na banguela, a loucura dolarizada-derivativa, proporcionada pelo Executivo, que abandonou as regras da regulamentação, da fiscalização e da prudência, eximindo-se da responsabilidade de ser coordenador geral do processo.
Inevitavelmente, a desmoralização do Executivo se intensficia, quanto mais elevados são os prejuízos financeiros da população, afetada pela irresponsabilidade do próprio Executivo
A questão é econômica, mas, também, política.
A pressa de W. Bush é a pressa de uma Executivo falido, em cima de um poder, o Legislativo, que somente se justifica, constitucionalmente, se tiver condições de impor a relatividade das coisas no ambiente do poder democrático. Sua lei é a flexibilidade.
A lei de W. Bush, enforcado pela crise bancária, é a da inflexibilidade, característica da pressa, semelhantte ao caráter das medidas provisórias que governam o Brasil desde a crise monetária dos anos de 1980.
O jogo do medo de W. Bush é a tentativa de ganhar no grito. O jogo do Congresso, pela sua peculiaridade, é o oposto.
A democracia americana, nas águas da bancarrota financeira impressionante, está diante do seu maior desafio.









