Afronta à América do Sul

A decisão do governo dos EUA de reativar a Quarta Frota Naval destinada a vigiar os mares da América Latina provoca ondas desafiadoras para as autoridades encarregadas da elaboração das políticas de defesa em cada um dos países da região. E também marolas no debate em círculos de intelectuais de esquerda ou não, nos meios de comunicação e na academia, com doses de subjetivismo e abstracionismo variadas e surpreendentes, quando a decisão estadunidense é repleta de ameaças sombrias, mas concretas, obrigando mesmo a uma atualização política cuidadosa.Surpreendente e patético, por exemplo, é o artigo do sociólogo estadunidense James Petras criticando Fidel Castro por ter desenvolvido em suas reflexões mais recentes  uma análise que aponta para a necessidade de uma solução política para a grave questão colombiana, realçando as dificuldades para uma vitória militar das Farc nestas novas condições da história. O professor universitário nos EUA, do alto de sua enorme experiência exclusivamente acadêmica, chega mesmo a tentar dar aulas a Fidel Castro sobre luta armada, ética revolucionária, terminando seu artigo com uma assustadora repreensão moral ao líder cubano. O artigo fala por si.

Outra tática, outros métodos

A ciência da tática revolucionária para cada situação histórica exige mesmo desprendimento de conceitos estáticos e dos moralismos abstratos, como se a opção por uma luta armada em determinado momento não pudesse ser transformada em opção por outra forma de ação política igualmente revolucionária, em outro momento, com métodos que incluem até mesmo a clássica participação eleitoral, ainda que os objetivos de transformação social adotados lá atrás, quando da opção pela luta armada, sejam rigorosamente mantidos.

É claro que houve muita capitulação, sobretudo nas fileiras dos partidos comunistas numa determina época e isso pode confundir. Mas isto não invalida esta possibilidade histórica. Não é o moralismo religioso em torno da luta armada que poderá resolver os problemas e os desafios colocados pela alteração desfavorável das relações de força internacionais. Tal como ocorreu com a desorganização da União Soviética.

A luta revolucionária não se paralisou, seja na sua opção armada ou na via política de massas, ainda que a desorganização da URSS tenha produzido um desconcerto generalizado no campo progressista internacional. Novos conceitos, novas táticas, novos métodos de luta tiveram que ser encontrados diante da ofensiva militar (Iugoslávia, Panamá, Iraque) e ideológica do capitalismo apregoando o fracasso histórico do socialismo e até mesmo o fim da própria história.

Mas esta alteração negativa nas relações de forças internacionais produziu condições para a derrota temporária ou transitória de muitos processos revolucionários. A derrota do Governo Sandinista, em 1990, por exemplo, embora não se devam esquecer as limitações internas que ajudaram naquele retrocesso.  Pois mudada a situação histórica, o guerrilheiro Daniel Ortega hoje volta ao poder pela via eleitoral. Para novos tempos, nova tática, outros métodos.

Chávez: da insurreição ao voto; do voto à revolução

Chávez também tentou a insurreição armada em 1992, que, apesar de fracassada em seu intento inicial, transformou-o no líder revolucionário que anos mais tarde, pela via eleitoral, assume o comando da Venezuela Bolivariana e vai produzindo transformações de natureza socialista e levando a Venezuela a ser um centro de animação revolucionária para toda América Latina.

Em uma entrevista televisiva no Brasil, concedida à Telesur, à TV Paraná Educativa e à TV Comunitária de Brasília, Chávez lembrou que quando jovem oficial foi incumbido de controlar guerrilheiros em seu país e que “por pouco não se passou para o lado da guerrilha”. Por sorte, não se passou e tem agora, a oportunidade de cumprir o papel histórico que está a cumprir, preconizando a integração latino-americana sobre bases soberanas e transformadoras, e relançando mundialmente o debate sobre “a volta do socialismo” que pretende, como disse nessa entrevista, levar ao Fórum Social Mundial de Belém do Pará. Cada método de luta revolucionária, para cada momento e condição da história.

O relançamento da Quarta Frota é uma resposta dos EUA à constituição de vários governos progressistas e de esquerda na América Latina. E também à idéia da integração latino-americana, com a formação de um Conselho de Defesa da América do Sul, sem participação dos Eua, pretendida por eles, e também após a derrota da proposta estadunidense da Alca para a qual, segundo disse Chávez, foi decisiva a posição firme do governo Lula.

Provavelmente o professor Petras, em sua larga experiência ……..acadêmica, tenha dificuldade de observar que na luta de classes surgem situações completamente imprevistas para os leitores ortodoxos de textos revolucionários, obrigando a adoção de métodos e táticas que muitas vezes podem ser considerados como heresia para os que fazem da defesa religiosa e moralista da luta armada .

A Unasul e as condições para novas iniciativas progressistas

As análises de Fidel mostram exatamente uma visão geoestratégica e tática apoiada na nova condição da América Latina, com seus governos progressistas, com a perda de influência dos EUA e que por isso mesmo, podem agarrar-se à conturbada situação colombiana para justificar mais presença militar, tensões exclusivamente militares, já que suas teses têm sido derrotadas nas urnas de cada país, nas reuniões da OEA, na constituição da Unasul, a formação do Conselho de Defesa Sul-Americano etc.

Os EUA precisam provocar uma tensão que lhe permita justificar ações no campo militar. Por isso, a Quarta Frota ou o ataque ao acampamento das Farc em território equatoriano, com mísseis dos EUA e total planejamento e inteligência típica dos israelitas. Mesmo assim, jornalistas progressistas, um pouco na linha isolacionista de Petras, chegaram a ver naquele ataque às Farc a participação de tecnologia e inteligência brasileiras. Ou seja, ótimo para provocar desconfianças mútuas no campo progressista e dificultar a tese subjacente à constituição do Conselho de Defesa da Unasul: a integração das políticas de defesa e da indústria militar dos países-membros.

A provocação da revista Cambio, que levantou a fantasmagórica tese de vinculação de membros do Governo Lula com as Farc, nada mais é que a nova escalada de provocações que está em curso, como parte das ondas e marolas causadas pela reativação da Quarta Frota. Por isso, é sumamente importante que o presidente Lula tenha pedido oficialmente ao governo dos EUA explicações para a presença da Quarta Frota. E apesar disso, é surpreendente a extrema capacidade de não enxergar o óbvio em certas ramas da comunicação, como a do editor de internacional da TV Brasil, Nelson Franco Jobim, que afirmou no programa “Diálogo Nacional” que pura paranóia esta tese da crescente presença militar dos EUA sobre a América Latina.

A melhor resposta ao jornalista é o próprio pedido oficial de explicação do presidente Lula ao governo dos EUA pela Quarta Frota, que também foi rejeitada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. O experiente senador Pedro Simon criticou a resposta dos EUA em que se afirma que a Quarta Frota tem missão humanitária: “Missão humanitária com arsenal nuclear???”, contestou Simon.

A função revolucionária de Cuba na África

A Quarta Frota é uma ameaça concreta aos governos progressistas latino-americanos. Seja por promoverem políticas que permitem a Cuba furar o bloqueio norte-americano, como é o caso da Alba e também da decisão brasileira de tornar-se “o parceiro número 1 de Cuba”. Para o professor Petras, nada disso tem relevância, afinal, o Governo Lula é apenas “mais um governo neoliberal”.

Na sua patética tentativa de dar lições a Fidel Castro, Petras esquece de muita coisa já cravada, com sangue e heroísmo, definitivamente nas mais nobres páginas da história. Entre elas, a heróica solidariedade de Cuba a Angola, sob a liderança de Fidel Castro e Agostinho Neto, que levou às terras angolanas 350 mil homens e mulheres combatentes cubanos numa das mais fascinantes operações de internacionalismo proletário dos últimos tempos.

Essa gigantesca operação militar-revolucionária teve o seu desfecho na Batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, quando tropas angolanas, cubanas e da organização revolucionária da Namíbia, a Swapo, derrotaram o exército racista-imperialista da África do Sul. Segundo Mandela, “Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid!”. E permitiu ao próprio Mandela, e ao movimento revolucionário armado da África do Sul, adotar a nova tática, passando das armas à ação política, com a inteligência das massas sul-africanas, dando continuidade ao heroísmo armado de Cuito-Cuanavale e derrotando o apartheid, levando Mandela ao poder, pelo voto. E Petras pensa em repreender Fidel…..

Fidel, Malvinas e Haiti

O mesmo Fidel Castro, demonstrando que em cada momento histórico são requeridas táticas diferenciadas e audazes, ofereceu ao governo argentino, durante a Guerra das Malvinas, em 1982, a solidariedade das tropas cubanas para lutar contra a Inglaterra. A recusa foi do governo de Galtieri, talvez percebendo, por instinto de classe, o grande efeito revolucionário que a presença de tropas cubanas a lutar na América Latina contra o imperialismo inglês teria sobre a consciência das massas latino-americanas.

É curioso lembrar que, na década de 30, quando havia a ameaça de uma guerra entre Inglaterra e Brasil, Trotsky, recém-chegado ao México, também recomendava que num conflito entre os dois países os revolucionários deveriam estar ao lado de Vargas contra o “democrático” império inglês. Coincidências da história. O mesmo general Cárdenas que havia dado asilo a Trotsky no México, liberou Fidel e Che, que haviam sido presos na capital mexicana, na década de 50, antes do embarque revolucionário no iate Granma, para libertar Cuba do imperialismo e das trevas do subdesenvolvimento colonial.

Os tempos são outros, a nova situação política latino-americana exige outra tática dos movimentos revolucionários mesmo, sem abdicar de seus objetivos, de suas metas. O Fidel que Petras tenta criticar revela também sua visão estratégica ao afirmar, diante de críticas de militantes brasileiros num Fórum em Havana, em 2005, contra a presença militar do Brasil no Haiti: “prefiro militares brasileiros que marines norte-americanos no Haiti”.

Por trás desta ação, ainda que com todas as suas limitações e complexidades – vale destacar que sem a presença dos EUA – está o embrião do Conselho de Defesa Sul-Americano, a proposta de integração da tecnologia e da indústria militares do sul, a proposta de cooperação técnica para construção de um submarino nuclear, pois, como alerta o vice-presidente José Alencar, o “Brasil deve ter seu submarino nuclear para defender sua imensa riqueza petroleira e dissuadir aventureiros”.

Os estadunidenses estão registrando com preocupação a instalação de fábricas de fuzis Kalashinikov na Venezuela, a compra de aviões Sukoy, a construção cooperada por Brasil e Argentina do carro de combate Gaúcho, os planos para a integração industrial aeronáutica brasileira-argentina, a integração energética em curso entre Brasil-Venezuela-Argentina-Bolívia, a integração educacional-social entre Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia, com médicos e professores cubanos semeando humanismo, saúde e cultura por aí.

A resposta a tudo isto é a Quarta Frota, o bombardeiro dos EUA ao território do Equador, as provocações desestabilizadoras contra o Governo Evo Morales na Bolívia, a sabotagem produtiva da oligarquia contra Cristina Kirchner. E, agora, a revista Cambio indicando a insatisfação dos EUA com a política externa brasileira e também de segmentos mais à direita no espectro colombiano, contra os acordos da Colômbia com o Brasil, ou contra a Venezuela, Afinal, para quem a burguesia industrial da Colômbia vai vender, se os EUA não lhes oferecem mercado, mas apenas que comprem armas…..

Mas, há os que querem ver na proposta de que as Farc tomem iniciativas no campo político, com todo o risco, dificuldade e complexidade que isso signifique, apenas uma capitulação dos que apregoam tal posição. É como se numa guerra fosse indigno recuar num momento, preservar posições, desistir transitoriamente de um objetivo, trocá-lo por outro, como se não fosse inevitável recarregar, reagrupar, redimensionar, sintonizar com as mudanças políticas internacionais, as novas relações de força que surgem. Ou seja, ou se mantém inabalavelmente o mesmo método de luta ou será indigno de chamar-se revolucionário. É como se houvesse apenas duas cores na natureza, o branco e o preto…

A esquerda está desafiada a desenvolver política e táticas que reforcem essa frente antiimperialista em estruturação e expansão a partir dos novos governos progressistas eleitos, produzindo iniciativas que possam reforçar seus fatores mais avançados e outras que permitam encorajá-los na superação de suas limitações mais complexas. Mas, esse debate pouco resultado terá a partir de condenações moralistas, repreensões professorais e pitos da mesma ordem.

*Jornalista