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Lula ganha de Chavez espaço na crise boliviana

Categoria: (Cultura) por Cesar Fonseca em 14-09-2008

O presidente Lula ganhou importante espaço político no contexto da crise boliviana, para tentar coordenar a conciliação entre governo e oposição. Está deslocando, com discurso conciliador, o presidente Hugo Chavez, que optou pelo discurso incendiário.

O presidente Evo Morales, contatado pelo titular do Planalto, na semana passada, para ajudar nos entendimentos, recusou apoio, num primeiro momento. A oposição, diante do vácuo, entrou pedindo o passe de Lula para ser agente da solução de consenso entre as duas partes em confronto.

Morales, sob pressão violenta dos adversários, ao dispensar a oferta lulista, deu a entender dispor de cacife suficiente. Não emplacou. A oposição mostrou força. Morales, então, foi ao contra-ataque, para expulsar o embaixador americano, considerando-o fomentador dos conflitos no país, articulado com a força reacionária, contrária ao avanço da democracia direta por meio de referendo. 

A próxima batalha, nesse sentido, deverá ser em 7 de dezembro, quando haverá ou não ratificação, pela população, da nova Constituição, que faz avançar o poder popular, hoje, em mãos dos indígenas, cujo líder maior é o presidente Morales.

Nessa Constituição, tirada de Assembléia Constituinte revolucionária, os estados mais ricos poderão perder autonomia e riqueza. Neles, estão as grandes fontes de petróleo e gás, sobre as quais Morales quer ampliar cobrança de impostos, para bancar programas sociais. Deseja fazer reformas do capitalismo boliviano, semelhantes às em curso, no Brasil, como forma de estabilizar crescimento e inflação, via melhor distribuição da renda nacional.

 

Precipitação chavista

Nesse contexto, em meio à reação diplomática radical de Morales, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, apostando no acirramento diplomático, agiu de forma semelhante, expulsando, no mesmo dia, em solidariedade ao colega boliviano, o embaixador americano no país, enquanto destaca, simultaneamente, que estava desarmando complô golpista contra seu governo.

A corda esticou, puxada pelos dois presidentes, Evo e Hugo, contra Washington, considerada por eles culpada pelo acirramento da crise. Evidenciou, então, para os adversários de Morales que seria impossível contornar a crise boliviana, mediante solidariedade de Chavez a Evo, que dispensara ajuda brasileira ofertada por Lula.

As tensões internas explodiram em dois dias, com 30 mortos e outro tanto de feridos, especialmente, em Pando, para onde tropas governistasse se descolocaram. Evidenciou-se o que os analistas já estavam prevendo: nem a oposição, sozinha, tem condições de vencer a parada, assim como o governo, também, dificilmente, sairia vencedor contra as forças dos oligopólios que dominam a economia nacional, tendo a oposição radicalizada como cabeça de ponte.

Com ambos os lados exaustos, falou alto a defesa feita por Lula pelo entendimento. Só que o apelo para a participação do presidente brasileiro como conciliador não partiu, dessa vez, do presidente Morales, mas dos líderes da oposição.

Ou seja, atenderá o apelo direto dos que são contra Morales, aliado a Chavez, que perdeu, pelo açodamento, condições de liderar, na Bolívia, um consenso, pois radicalizou demais antes da hora.

O que Morales e Chavez deveriam fazer, desde o primeiro momento dos ataques terroristas e fascistas da oposição contra o governo, seria a cobrança ao inimigo deles, o presidente W. Bush, de apoio às forças políticas constitucionais, pois, afinal, os Estados Unidos mantêm cruzada permanente contra os terroristas.

No dia 11 de setembro, teria sido o momento ideal, pois representava data dos atentados terroristas em Nova York, há sete anos. W. Bush, com essa cobrança, ficaria no curé.

Em vez disso, Morales expulsou o embaixador, seguido, no gesto por Hugo Chavez. Deu motivo para Bush ficar na dele, parcial, no ataque, contra as forças democráticas bolivianas, expressas por manobras realizadas pelo seu representante no país, com conhecimento pleno dos seus chefes em Washington, claro.

 

Teste para liderança chilena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nessa segunda feira, os desobramentos da crise rolam em Santiago, Chile, com reunião da União das Nações Sul Almericanas – UNASUL -, sob presidência da presidente Michelle Bachelet, que a convocou para discutir a crise boliviana.

Será o primeiro teste barra pesa da nova organização continental, nascida para promover as demandas por integração econômica e política da América do Sul.

Lula chega lá polarizando com Chavez, no plano diplomático, fortalecido por ter se tornado elemento que poderá gerar consenso entre as partes em conflito, sabendo que o Brasil é o mais interessado no processo de paz, já que depende do gás boliviano para abastecer as indústrias em estados fortes como São Paulo e Rio de Janeiro.

Pode ser a hora do presidente brasileiro destacar-se no plano diplomático sul-americano, com ênfase, dadas as condições favoráveis que dispõe, tanto no plano político, por estar bombando nas pesquisas de opinião, diante da economia nacional em crescimento, enquanto a economia mundial mantém expectativas pessimistas, mas, também, porque o Brasil, com as descobertas trilhonárias de petróleo, na camada pré-sal, passou a ser respeitado no plano continental e global.

Obtém cacife extraordinário, para ser voz de comando no contexto da união sul-americana, pregando moeda sul-americana, banco central sul-americano, segurança sul-americana, tribunal sul-americano e parlamento sul-americano.

As riquezas sul-americanas sobrevalorizadas no ambiente em que as relações de trocas internacionais vivem incertezas diante da sobredesvalorização do dólar, moeda referencia global, podem ser o lastro da união, com o Brasil despontando-se com maior expressão nessa nova conjuntura. 

Ou a riqueza, em vez de união, geraria discórdia?

Imperialismo sanguinário

Categoria: (Política) por Mauro Santayana em 14-09-2008


O que está ocorrendo na Bolívia ocorreu no Brasil, em 1964; no Chile, em 1973; na Argentina, em 1976, e quase ocorreu na Venezuela, em 2002. Tudo começou com a usurpação de 1.300 mil km² do território do México, na guerra movida pelo presidente Polk (1846/1848). E em 1856, o mercenário ianque William Walker se declarou presidente da Nicarágua. Podemos deixar de lado o caso bem conhecido da intervenção em Cuba, desde sua “independência” até a Revolução de 1959.

No início do século 20, para construir o canal, os americanos promoveram o movimento separatista do Panamá – que pertencia à Colômbia – e obtiveram, da constituição que eles mesmos redigiram, o direito de intervir no país quando necessário. Entre 1926 e 1933, a Nicarágua viveu a extraordinária gesta de Sandino – em seu tempo, mito maior do que o de Guevara. Ele enfrentou vitoriosamente os marines, foi traído e assassinado por Somoza, em encontro marcado para a conciliação nacional. Como prêmio, o democrata Roosevelt fez do assassino o ditador da Nicarágua, que legou o país a seu filho, até a vitória dos sandinistas em 1979, quando os EUA armaram os contra-revolucionários. Em El Salvador o terrorismo norte-americano matou dezenas de milhares de pessoas, entre elas o bispo dom Oscar Romero, junto ao altar.

Em 1964, os norte-americanos estimularam e orientaram, mediante seus diplomatas e agentes, o golpe contra o governo constituído de Jango. Como hoje na Bolívia, houve a orquestração da imprensa, o incentivo aos baderneiros, a mobilização da extrema direita. Em 1973 foi a vez do Chile. Repetiu-se o mesmo modelo, com o envolvimento das forças armadas, o uso de vultosos recursos financeiros, a cooptação remunerada dos serviços de informação, os atos de sabotagem, o lock-out dos empresários e o estímulo a agentes provocadores. O golpe contra Allende só foi consumado com a morte do grande presidente. O envolvimento dos Estados Unidos no episódio é registrado em documentos oficiais de Washington.

Jogo da brutalidade

A Venezuela, mesmo depois de o presidente constitucional Hugo Chávez ter sido seqüestrado, conseguiu impedir o golpe de abril de 2002, patrocinado pelos Estados Unidos, pelas multinacionais, empresários locais e os meios de comunicação. No fim da última semana, era denunciada nova articulação golpista. Com a experiência que temos do passado, é quase certo que Washington se encontre por detrás da conspiração. Chávez, diante dos fatos na Bolívia, teve a coragem de expulsar o embaixador dos Estados Unidos. Morales também havia decidido declarar persona non grata o embaixador norte-americano em La Paz, e com razões públicas e objetivas: o diplomata estava se reunindo com os governadores da oposição que pregam a independência de suas regiões.

A Bolívia não se encontra nas antípodas. Está ali, ao lado. A nossa posição, no episódio, deve ser orientada pela velha afirmação do princípio de não intervenção. Fez bem o Brasil em acatar a decisão de Evo Morales de declinar do oferecimento dos vizinhos para buscar a conciliação. Morales preferiu convidar o prefeito de Tarija, a fim de conversar. O problema maior é o grande latifúndio: 860 proprietários controlam 46% das terras da planície (quatro deles com glebas de mais de 50 mil hectares cada um), enquanto 54 mil empresários médios só possuem 7,3% da área. Os índios foram despojados de suas terras, e o agronegócio (movido por croatas, sírio-libaneses, norte-americanos e brasileiros) está por detrás das agitações. É ainda mais grave saber que a razão invocada pelos baderneiros é a de que Morales vai usar os recursos do gás para socorrer os bolivianos idosos e pobres.

Não é provável uma saída rápida para a crise. Ainda que se chegue a um acordo entre o presidente e os governadores da região oriental, o problema continuará latente. O caso da Bolívia é também uma advertência para a nossa política fundiária na Amazônia. Estamos permitindo a aquisição de glebas na região por estrangeiros e por grandes fundos de investimentos (que são apátridas, como o Opportunity), o que trará grande risco em futuro próximo.

Aos Estados Unidos não interessa a estabilidade de nenhum país do continente. É evidente que tanto na Venezuela, quanto na Bolívia, seus agentes, oficiais e embuçados, incentivam os inimigos de Morales e de Chávez. Diante da situação, os demais países sul-americanos devem unir-se diplomaticamente e impedir o pior.

 

Coisas da Política(JB) 

 

Embaixador separatista

Categoria: (Política) por Marco Weissheimer em 14-09-2008

Não é flor que se cheire o expulso embaixador dos Estados Unidos, na Bolívia, Philip Goldberg. Deputados bolivianos acabam de divulgar documento denunciando as articulações promovidas por ele na tentativa de desestabilizar o governo, representante do poder indigenista democrático, sob comando do presidente Evo Morales.

 Considerado especialista em conflitos separatistas, Goldberg, afeito às manobras conspiratórias típicas da CIA, foi enviado a La Paz , depois de chefiar a missão dos EUA no Kosovo, onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, depois da Guerra dos Balcãs.

Os parlamentares do Movimento ao Socialismo, partido do presidente da Bolívia, César Navarro, Gustavo Torrico, Gabriel Herbas e René Marinez, relacionam o conjunto de fatos ocorridos nos departamentos da região lete do país(Tarija, Beni, Pando, Santa Cruz e Chuquisada), dando conta dos fatos que vinculam Goldberg às conspirações, que exploriam em atentados terroristas contra a democracia participativa boliviana.

 São os seguintes:


1 – No dia 13 de outubro de 2006, os Estados Unidos enviam a Bolívia, como embaixador, Philip Goldberg, um especialista em fomentar conflitos separatistas. Entre 1994 e 1996, foi chefe da secretaria do Departamento de Estado para assuntos da Bósnia (durante a guerra separatista dos Bálcãs).

 Entre 2004 e 2006, Goldberg chefiou missão dos EUA em Pristina (Kosovo), onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, marcada por uma luta que deixou milhares de mortos.

Segundo os deputados, Philip Goldberg foi enviado a Bolívia com a missão de desestabilizar o governo de Evo Morales, principalmente incentivando o separatismo das regiões orientais.

 Na Bolívia, depois do triunfo de Evo Morales na eleição de 18 de dezembro de 2005, os partidos tradicionais e as elites sofreram um duro golpe.

 Goldberg, com aval da Casa Branca, encarregou-se de reorganizá-los e de construir um caminho conspirativo para desgastar o novo governo.

2 – O embaixador trabalha, desde então, para fixar Plano midiático de desinformação. Para tanto, organizou grande coordenação com empresários do leste, com donos de meios de comunicação e políticos do movimento Podemos, força política oposicionista, para colocar em marcha um grande plano de desinformação com respeito à gestão de Evo Morales.

Tudo isso dentro do marco de uma intensificação das lutas regionais contra o Estado boliviano. Esse plano de desinformação era constituído pelos seguintes passos:

a) Mostrar que o narcotráfico estava crescendo na Bolívia;
b) Os meios de comunicação precisavam mostrar que Evo estava governando mal e que a inflação, a corrupção e o desgoverno estavam crescendo;
c) Os meios de comunicação também deviam imputar ao governo a responsabilidade pela violência no país.

 Começou a ser difundido aí o conceito de que “Evo dividia a Bolívia”.

 

O jogo da conspiração

Consolidados esses passos, Goldberg reúne-se, na primeira semana de maio, com Jorge Quiroga, líder oposicionista, e acertam a aprovação, no Senado, do referendo revogatório.

Eles estavam convencidos de que Evo Morales não conseguiria obter mais de 50% dos votos e, uma vez deslegitimado nas urnas, a oposição e os prefeitos da chamada “Meia Lua” pediriam a renúncia do presidente por “ilegítimo, mau governante e por dividir a Bolívia”.

No entanto, os prefeitos dos departamentos (equivalentes a governadores) não foram consultados sobre este plano e acabaram se opondo a ele, por achar que não daria certo. Jogo típico da CIA.

No dia 23 de junho, reúnem-se em Tarija e elaboram um pronunciamento escrito para rechaçar o referendo revogatório.

 Dias antes, em 17 de junho, Philip Goldberg viajou para os EUA, alegando uma suposta crise diplomática.

O objetivo real de sua viagem, dizem os deputados, foi definir um plano, junto a agências publicitárias, para desenvolver uma guerra suja que pudesse causar a derrota de Evo no referendo.

No dia 2 de julho, Goldberg regressou a La Paz e, imediatamente, reuniu-se com cada um dos prefeitos opositores para convencê-los a aceitar o referendo.

No dia 5 de julho, os prefeitos opositores anunciam que aceitam disputar o referendo.

Os donos das grandes empresas de comunicação também participaram deste plano, denunciam os parlamentares. Isso explicaria, por exemplo, porque nos principais programas políticos destes meios as pesquisas sempre apontavam Evo Morales com cerca de 49% dos votos.

A tentativa de derrubada do governo pelo voto estava em marcha. Além desta campanha nos programas políticos, também foi executada uma outra no terreno da publicidade.

A oposição contratou uma agência de publicidade para elaborar os primeiros spots contra Evo Morales. Ao dar-se conta que os roteiros e o dinheiro vinham dos EUA, esta agência decidiu não produzir mais os comerciais. 

 

O Plano B do embaixador

Passo um – o plano para tirar Evo do governo acabou sendo frustrado pelo resultado do referendo. O presidente se legitimou com mais de 67% dos votos e Goldberg passou então a colocar em marcha um Plano B, que incluem greves, bloqueios e ações violentas que buscariam dois resultados alternativos.

O conflito se generaliza sobre o leste e parte do oeste do país. A população começa a se cansar, as forças da ordem entram em ação, com muitas mortes.

Neste caso, Evo teria que convocar eleições ou deixar o governo depois dos conflitos com mortes. A insistente provocação para que as forças policiais e as forças armadas atuem se encaixa neste plano.

Passo dois – caso não ocorra o cenário anterior, a oposição contaria ainda com uma segunda possibilidade: uma vez desalojada a polícia e o Estado Nacional das regiões, em meio à violência, Goldberg oferece aos prefeitos opositores a vinda de mediadores internacionais, inclusive tropas da ONU para concretizar o separatismo dos quatro departamentos rebeldes, como fez no Kosovo.

Seguindo esse plano, Goldberg viajou a Sucre e se reuniu com a prefeita Savina Cuellar, que pediu a renúncia do presidente.

No dia 21 de agosto, o embaixador encontrou-se, clandestinamente, com o prefeito de Santa Cruz, Rubén Costas, e com quatro congressistas norte-americanos.

No dia 25 de agosto, mais uma reunião com Rubén Costas. Paralelamente, a oposição rejeitou o chamado de diálogo feito pelo governo e, no dia 24 de agosto, convocou uma greve geral.

Seguindo a linha proposta por Goldberg, denunciam ainda os parlamentares do MAS, os prefeitos impuseram um plano de desgaste de médio prazo, incluindo destruição de instituições públicas e provocações à polícia e às forças armadas.

Na mesma linha golpista, em Santa Cruz e em Tarija começou-se a falar de federalismo e até de independência.

Como o empresariado cruceño estava mais interessado na Feira de Santa Cruz (que deve iniciar no dia 19 de setembro) que nas greves e bloqueios, o Departamento de Estado convocou Branco Marinkovic para uma conversa nos EUA.

No dia 1° de setembro, em um pequeno avião Beechcraft, matrícula C-90A, Marinkovic viajou aos Estados Unidos onde o convenceram de que o plano estava em sua trama final e que era preciso jogar-se todo nele.

No dia 9 de setembro, horas depois do regresso de Marinkovic a Santa Cruz, iniciam protestos violentos, com invasão e queima de instituições públicas e novas agressões às forças armadas e à polícia.

Este é o plano golpista que está em marcha com o apoio da embaixada dos EUA, dizem os deputados. Foram essas razões, asseguram, que levaram o governo boliviano a pedir sua saída do país.

Eles manifestam confiança de que esse plano fracassará, porque o governo de Evo Morales segue controlando o conflito, com paciência e dentro da legalidade, mantendo-o em sua dimensão regional.

Concluem os parlamentares:

“A violência gerada por grupos impulsionados por este plano golpista é a forma pela qual os setores conservadores mostram sua decisão de acabar com a democracia, já que ela não serve mais aos seus interesses”, concluem.