O medo da própria riqueza

O papo que está crescendo nos meios econômicos conservadores é o de que é perigoso o governo antecipar receita por conta da riqueza do petróleo descoberto na camada pré-sal, na Bacia de Santos, cuja exploração começaria em 2010/2011. Medo da própria riqueza?

Os investidores sabem que a mercadoria é de primeira qualidade, é segura e não deixará de valorizar constantemente nos próximos anos, a menos que emergisse rápido colapso ecológico que viesse viabilizar o hidrogênio como combustível global não poluente, para salvar a humanidade, fosse a que custo fosse, se fosse o caso, claro.

Por que não pode usar o dinheiro, de forma antecipada, jogando investimentos massivos em educação, na linha nacionalista de Anísio Teixeira?

Por que renunciar a essa grana que pode ser levantada naturalmente, pois o ouro negro é liquidez segura? Quem, em sã consciência, abre mão dessa possibilidade concretta, para revolucionar a infra-estrutura nacional, construindo estradas, portos, aeroportos, ferrovias, hidrovias, todo o insumo necessário para conferir valor agregado ao produto básico existente em abundância?

Os economistas já vocalizam o ponto de vista dos banqueiros, seus patrôes: excesso de riqueza pode virar pressão inflacionária, a maldição do petróleo. Será?

O país possui uma base industrial que precisa ser renovada a cada dois anos, no compasso do desenvolvimento científico e tecnológico, com profissionais altamente preparados.

Por que não acelerar as possibilidades abertas pela riqueza? Não fazê-lo, seria o caso de ter ganhado na loto sozinho e resolvido mudar prá roça.

Quem tem medo de uma educação nacionalista?

A hora da mudança do capitalismo nacional

A campanha nacionalista desatada pelo presidente Lula frente aos estudantes, convocando-os a defender nova legislação do petróleo, que encaminhará ao Congresso, depois das eleições, abre espaço à educação nacionalista e universal, que precisará da antecipação dos recursos oriundos do petróleo a ser explorado.

Está em jogo a modernização capitalista nacional acelerada. Não se trata de risco, mas de certeza, grana viva para investir em ciência e tecnologia, formando  geração de profissionais de alta qualidade, como fizeram os japones, chineses, coreanos e americanos, para não dizer europeus. Por isso, dão as cartas no mercado de patentes internacionais, conhecimento monetarizado.


A história mãe da verdade

Na década de 1930, Anísio pregou universalização da escola integral no Brasil, trazendo para cá a experiência revolucionária americana.

Os Estados Unidos viviam a ressaca da crise de 1929 e passaram a fazer grandes investimentos estatais em pesquisas científicas e tecnológicas, formando mão de obra técnica em larga escala, para atender a standardização empresarial e sua aplicação na economia de guerra, na expansão bélico-espacial, tocada pela moeda estatal inconversível.

O combustível, portanto, foi o gasto público, mediante emissão monetária que viera para estabelecer novo padrão monetário internacional, depois que o crash de 29 detonou o padrão-ouro, que limitava a economia capitalista em rígidos cânones orçamentários-equilibristas-deflacionários, como destacou Keynes.

A dívida pública se transformou na âncora capitalista para gerar a demanda global. A educação virou foco nacional. Anísio Teixeira viveu aquele momento e trouxe a experiência para o Brasil.

Os gastos públicos em educação, nos Estados Unidos, a partir de 1936, quando o governo Roosevelt aceita integralmente o conselho de Lorde Keynes e decide decuplicar os gastos do governo, para tirar a economia  do marasmo decorrente do crash, deram partida à experiência americana de ensino integral na educação básica.

Emergiram razões históricas conflitantes, marcando qualitativamente a diferença cultural entre Estados Unidos e Brasil, naquele momento.

A nação americana foi colonizada pelo espírito empresarial, a nação brasileira pelo espírito burocrático da península ibérica. Esta obediência às determinações manuelinas, que coordenavam as ações práticas, burocráticas, dos gerentes de Portugal, na administração da colonia. Sob regime escravista burocrático, predominou a subordinação e não a coordenação do desenvolvimento nacional sustentável.


Subordinação aos mandamentos coloniais

Cuidaram, em nome dos interesses de Portugal, de capar qualquer espírito ousadamente empresarial. Assim, a experiência americana exitosa com a educação integral entrou em choque com os interesses conservadores que levaram a elite brasileira conceber sistema educacional castrador da criatividade empreendedora.

A elitização educacional destinada a formar espíritos meramente escolásticos impediu que se prosperasse espírito econômico essencialmente renovador.

Mauá, sob o segundo imperio escolástico-escravista, subserviente aos interesses econômicos ingleses, não conseguiu vencer as misérias políticas mediante genialidade empresarial empreendedora. Prosperou contra ele o espírito burocrático português se incomodou com a extroversão criativa-empresarial de Mauá, de agir com a mente global.

Inveja pura, que levou às conjecturas de bastidores, conspiratórias, que destriram o grande empresário brasileiro do século XIX, ou seja, detonaram os próprios interesses nacionais.

Seus investimentos industriais e sua pregação industrial nacionalista, que exigia nova educação, criariam filhotes em termos de formação de mão de obra técnica que permtiria ao país partir para a sua escalada industrial no plano global.

O espírito burocrático das elites escravistas foi , portanto, o responsável pela escalada da ignorância da população em termos educacionais, pois educar o povo seria romper com os limites estreitos da própria elite.

Aníso Teixeira foi perseguido intensamente até à morte, cuja causa ainda precisa ser investida pois teria sido assassinado às vésperas em que seria indicado integrante da Academia Brasileira de Letras e pretendia fazer daquele palante sua pregação educacional renovadora, no momento em que o país vivia sob ditadura militar nacionalista, porém, anti-educação, por termer subversão.

Sementes eternas de libertação

As sementes de Anísio prosperaram sofreram tempestades e perseguições, mas seu pensamento segue firme, renovador, estimulador e permanentemente incômodo, simplesmente, porque a aposta na educação integral pública , que permite a relação da teoria com a prática, no processo pedagógico, é sempre sucesso, onde aplicada como política de Estado em busca da sustentabilidade nacional.

A experiência anisiana gerou marcas profundas no inconsciente nacional e deixou sua experiência em aberto para ser retomada pelos governadores, como José Arruda, no Distrito Federal, e, agora, pelo governo federal, quando a proposta da escola integral passa a ser colocada na agenda nacional, fortalecendo a educação básica, profissional e acadêmica, como integrantes entre si no processo de formação nacional.

O dinheiro do petróleo aceleraria a experiência anisiana, revolucionária. Trata-se, então, de antecipar dinheiro para gastos iminentes no processo educacional renovador. O lastro financeiro? A bacia de Santos. Riqueza imensa, dinheiro vivo.

Por que não colocar o pensamento de Mauá para funcionar, largando de lado o escolasticismo do pensamento positivista que fixa limites estreitos para a ação da economia política no país?


Unitização financeira para o desenvolvimento

O princípio da unitização da produção, que se sustenta no argumento de que existiria uma só camada de reservas petrolíferas, na chamada área do pré-sal, estendendo-se do Espírito Santo a Santa Catarina é a base da alavancagem nacionalista em marcha.

Se, como destacam especialistas, seria quantidade suficiente de petróleo para rivalizar com as reservas da Venezuela, a escala da especulação varia de 8 bilhões, passando por 50 bilhões, 200 bilhões, até 300 bilhões de barris. Haja petróleo.

O novo Sheik tropical, presidente Lula , está a cavaleiro, em cima do camelo. O dinheiro para a educação, disse, virá do petróleo. É fazer dinheiro já, pois , na prática, ele está em caixa.

A tecnologia para transformar em realidade o que está debaixo da terra já está desenvolvida. Por que o megaespeculador internacional, George Soros, jogou quase 1 bilhão de dólares para adquirir perto de 24% das ações ordinárias da Petrobrás?

Certamente, não estaria preocupado por ter a empresa perdido nas últimas semanas valor de mercado da ordem de 70 bilhões de dólares. Cosquinha para o tamanho do negócio chamado Petrobrás, que entrará, brevemente, na área dos fertilizantes, para libertar oos agricultores brasileiros das importações cujos preços são oligopolizados.

Condição histórica excepcional

Lula está com a faca e o queijo nas mãos. O dinheiro pode ser levantado. O próprio George Soros estaria interessado em ajudar o presidente Lula. Prosperaria seu próprio negócio.

Eis a globalização do capital, que coloca em um mesmo patamar de interesse o Palácio do Planalto e o megainvestigor internacional, demonstrando que, realmente, as finanças governam os governos.

O dinheiro do petróleo monetizaria em excesso a economia, gerando maldição inflacionária?

Esse é o alarme levantado pela revista Veja, que vocaliza os interesses dos grandes investidores internacionais do petróleo, preocupados com a decisão de Estado que leva a União a participar da partilha direta com as empresas no resultado da exploração do petróleo.

A pauta política nacional passa a ser essencialmente nacionalista em torno da destinação dos recursos que serão antecipados pela riqueza monetária líquida em que se transformou o petróleo, no contexto em que o dólar se desvaloriza por conta do colapso bancário nos Estados Unidos, que leva a economia à recessão.

Quem renuncia à utilização do excesso do dinheiro disponível em caixa, para tocar o desenvolvimento, se é confrontado com argumento monetário de que os investimentos públicos gerariam forte liquidez monetária que levaria à explosão inflacionária?

A realidade não é pre-estabelecida, não se trata de livro já escrito, mas a escrever pela ação humana, que é, essencialmente, política. Por que renunciar a essa caracterítica essencialmente humana em nome do desenvolvimento, a fim de render-se às preocupações excessivamente conservadoras?

Certamente, essa estratégia levará o governo, liquidamente financeiro, com as reservas monetárias engordadas pela receita antecipada do petróleo, a ganhar cacife para renegociar seus débitos, com descontos mais consideráveis, dada sua vantagem comparativa expressa nas reservas petrolíferas, dinheiro vivo.

Melhor lastro, impossível. Faltaria , portanto, não a economia, mas a politica.

Lula se renderia ao discurso que os credores ditaram pelas páginas da Veja ou imporia a sua agenda, no momento em que o Brasil dispõe dessa condição excepcional de fazer sua própria agenda, ancorada na sua riqueza sobreavalorizada no cenário da sobredesvalorização do dólar, bombardeado pela crise bancária?

Medo da própria riqueza?