Brasília subterrânea

Está cada vez mais claro que Brasília não pode crescer para cima, somente para baixo. Por cima, está tombada pelo patrimônio histórico. É preciso rasgá-la de norte a sul e de leste a oeste subterraneamente, mediante projeto internacional. A licitação deve ser preparada já para produzir concorrência eminentemente global, envolvendo todos os arquitetos do mundo.
Quem sabe não ganhe, novamente, Oscar Niemeyer, que, agora, está apavorado com o perigo que corre a sua criatura, bolada junto com Lúcio Costa? Ele tem razão. A urbanização acelerada e a impossibilidade de a capital expandir-se criam obstáculos instransponíveis, cujo desfecho é o colapso.
Niemeyer alerta, mas, qual a solução? As soluções para Brasília não estão no imediato. Têm que ser pensadas como fez JK, para anos à frente. Obras de beiras não resolvem, pois o resto está tombado, sobrando pouco ou nenhum espaço mais. Novos cinquenta anos em cinco serão necessários para produzir cidade subterrânea, dados os limites de crescimento externo imposto pelo tombamento.
Os esforços, nesse sentido, não devem ser feitos, apenas, pelo governo distrital, mas, também, federal. O presidente Lula precisa reunir-se com o governador Arruda, tendo como coadjuvantes, os representantes da sociedade, para discutir a nova Brasília subterrânea.
Há riqueza disponível no país. As reservas cambiais de 200 bilhões de dólares, que correm perigo de derreter, no compasso da crise bancária internacional, deveriam ser transformadas em bases econômicas fortes, alavancando a Brasília subterrânea.
A riqueza disponível no país, depois das descobertas do petróleo, na costa que vai de Santa Catarina à Bahia, também, é o lastro financeiro do qual o governo pode lançar mão para construir não apenas a Brasília subterrânea, mas toda a infra-estrutura nacional, capaz de permitir a economia produzir a demanda e a oferta em doses suficientemente autosustentáveis, para tornar o Brasil país de primeiro mundo, amplamente respeitado.
Trata-se de empreendimento que poderá ser feito com muito mais velocidade do que os cinco anos gastos por JK para erguer a nova capital. Enquanto naquele tempo se cavava a terra com picaretas, para encher caminhões com as pás impulsionadas pelos braços humanos, hoje a evolução tecnológica apresenta as grandes máquinas que removem milhões de toneladas de terras em poucas horas, rompendo todos os obstáculos. E, principalmente, há dinheiro sobrando.
Faz-se necessário visão mais ampla para enxergar a nova capital como solução dos problemas econômicos, sociais e políticos, não apenas no plano do Distrito Federal, mas, igualmente, nacional, visto o caráter integrativo e dinâmico de Brasília como coordenadorda do desenvolvimento nacional, com ampla participação estratégica na construção da União das Nações Sul-Americanas, a Unasul.
Por cima, felizmente, não haverá solução, apenas problemas. Como está alertando Niemeyer, o adensamento populacionacional, no meio da escassez de espaço, produzirá uma capital inviável, brevemente, impedida de crescer. O colapso vem a galope.
É preciso aceleração juscelinista. Os investidores nacionais e internacionais estão em busca de oportunidades no novo Brasil, calçado por riquezas monumentais, que se sobrevalorizam, enquanto o dólar, moeda de troca internacional, se sobredesvaloriza.
O Brasil possui lastro podersoso que o tornou personagem de influência global decisiva. Sua importância pode ser fundamental para atuar como fator dissuassório da recessão que ameaça a Europa e os Estados Unidos, no compasso da crise bancária, que empobreceriam os países ricos, se houvesse implosão geral.
Os investidores internacionais, que estão preocupados com os dólares disponíveis, em processo de sobredesvalorização, aplaudiriam a construção de uma Brasília subterrânea, como aplaudiram a construção das obras chinesas que abrilhantaram a grande olimpíada de Pequim.
É nessa bandeira que temos de agarrar para construir a Brasília subterrânea e, igualmente, toda a infra-estrutrura nacional, alargando as estradas, as pontes, os viadutos, modernizando os portos.
A Brasília subterrânea faz, obrigatoriamente, parte do processo de expansão da infra-estrutura nacional. Foi com ela que JK deu a partida para a grande integração econômica brasileira.
A lição está viva para ser repetida com a expansão da capital subterraneamente. Seu futuro está debaixo da terra.