Radicalização contra os emergentes

A exigência máxima dos Estados Unidos e da Europa em favor de corte de mais de 50% nas tarifas de importação de produtos industrializados pelos países emergentes, enquanto resistem a cortar subsídios no montante de apenas 15 bilhões de dólares, cria guerra comercial.
O governo brasileiro, no contexto inflacionário, que o obriga a tomar medidas que evitem o desânimo empresarial, especialmente, na política cambial, terá que jogar mais agressivamente no comércio internacional, para não sufocar a industria nacional, mantida a sobrevalorização do real frente ao dólar.
As declarações empresariais guardam expectativas desaceleracionistas. Elas, por sua vez, criam psicologias que se expressam em restrição ao impulso animal empresarial para o investimento, já que vêem fatores de perturbação no horizonte. Estes colocariam em risco o seu capital. É o momento em que o empreendedor perde a visão do que Keynes denominou de eficiência marginal do capital, isto é , o lucro.
O perigo para o governo Lula é o avanço das incertezas que desatam intensas resistências psicológicas negativas e restritivas em matéria de investimento. Diante das incertezas internas, sobraria a visão do passado, ou seja, as certezas externas, impulsionadas pela mão do Estado por meio das desvalorizações cambiais.
O passado, porém, traz seus pecados: as pressões inflacionárias. Elas, nas águas da desvalorização, jogaria areia no PAC. Os empresários, envolvidos com ele, refariam suas contas, para saber até onde o jogo do juro alto contra a inflação influenciaria suas margens de lucro. Exigiriam preços e reformulações de contratos etc.
Forma-se, com as pressões inflacionárias atacadas pelo juro exageradamente alto, conjunto de expectativas psicologicamente carregadas de receios negativos, que seriam adequadas para os empresários exportadores fortalecerem discursos voltados para a sobredesvalorização do real frente ao dólar.
A moeda nacional está quase 140% mais cara do que o dólar no espaço de 24 meses encerrados em junho. Se fragilizar o gás do governo, para bancar a sobrevalorização do real, crescerão as pressões exportadoras, com o discurso de que são geradoras de saldos comerciais capazes de atenuar o deficit em contas correntes que avança com o dólar barato.
O governo Lula passa a enfrentar novo contexto internacional, inverso ao que saboreou nos últimos quatro anos. Se antes, o mercado estava, para os emergentes, mais comprador do que vendedor, agora, como demonstra Doha, a situação se inverte: os ricos querem desovar seus estoques de qualquer jeito, mediante pregação agressiva de abertura comercial, em Genebra, porque temem deflação em face do dólar sobredesvalorizado que impõe deterioração nas relações de trocas entre produtos primários, em alta, e secundários, em baixa.