Lulismo jurista maquiavélico

Lula
Lula

O presidente Lula jogou maquiavelicamente no comando da economia política para determinar a política econômica na fixação em 13% da taxa básica de juro, com aumento de 0,75 ponto percentual, em nome do combate à inflação.

BC durão. Foi um choque. Algo como se fosse dado o recado de que se fará, agora, como Maquiavel, isto é, todo o mal possível de uma vez, para conter o monstro inflacionário, para que, depois de contido o bicho, haja possibilidade política – recomendável – para afrouxar as rédeas, se for o caso.
Mete o bode na sala, para, depois de passada a tempestade, tirá-lo. Previnir para não remediar.
A decisão governamental visaria, portanto, objetivo anti-inflacionário e político, ao mesmo tempo, no curto e no médio prazo, enquanto se decide, no plano prático das providências, por maiores investimentos em agricultura. Seria a forma de aumentar a oferta de alimentos, cujos preços, bombados pelas pressões inflacionárias, passaram a comer o rendimento dos assalariados.
O curioso é que a radicalização antiinflacionária lulista-jurista entrou em choque com a queda da inflação em junho-julho, sinalizando segundo semestre mais ameno nas remarcações de preços, por conta do estresse econômico mundial com a desvalorização inflacionária do dólar.
A radicalização lulista-jurista vem com sinal trocado, diante de possíveis novas expectativas de queda de preços. Resta apostar no efeito positivo que decorrerá do aumento do investimento na produção agrícola, produto que se transformaria no principal marketing governamental de arma de combate à inflação pelo aumento da produção.
No médio prazo – 2009 – , o aumento dos investimentos antinflacionários na produção agrícola inverteria tendência do noticiário de cair em cima das preocupações sociais generalizadas com o aumento dos preços da cesta básica alimentar.
Já, no curto prazo – 2008 – , o juro alto, como arma contra o dragão da inflação, criaria, ao lado da maior oferta de alimentos, ambiente psicológico para que os preços, por conta da radicalizada na marcação do custo do dinheiro, tendam à queda.
Seria um lance, meramente, psicológico, porque o governo não mexeu nos prazos do crédiário nem cortou gastos. O Planalto está com pé no acelerador em ano eleitoral.
Ficaria a sensação psicológica de que o juro alto combate à inflação, mas, na prática, fatores que impulsionam a inflação ficariam intactos. E o crédiário, que dá cartaz político popular, continuaria correndo solto, pois a população não preocupa com o juro mas o tamanho da prestação negociada no tamanho do salário.
Em ambos os casos, no curto e no médio prazo, no ambiente do aquecimento econômico em curso, as forças governistas, que enfrentarão eleições em 2008, municipais, e 2010, gerais, com sucessão presidencial, estariam bastante cacifadas.
No médio prazo, como efeito da puxada forte no custo do dinheiro, haverá, como destacou o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, redução do nível de atividade, ao longo de 2009, mas, se a safra de grãos for um sucesso, por conta da aposta na produção dos alimentos, o processo se inverteria.
Haveria, em 2010, maior margem de manobra para inverter a mão na taxa de juro. Maquiavel mostraria sua segunda face, a de afrouxar os controles rígidos.
Ou seja, as forças políticas governistas entrariam na reta final da sucessão lulista com situação político-econômica confortável para enfrentar a oposição, se as coisas não fugirem do controles oficiais, algo perfeitamente possível no mar de incertezas em que vive a economia global.
A aposta governamental, portanto, é chegar bem em 2008, aceitar possível restrição em 2009, para, em 2010, adotar as manobras necessárias para incrementar novo impulso econômico, injetando otimismo generalizado.
Resta contabilizar o aumento brutal da dívida pública no compasso do juro alto e na valorização excessiva do real, que inviabiliza o comércio exterior, no momento em que há crescente déficit em contas correntes.
O governo sinaliza tempos de incerteza, com o exagero do juro alto, sabendo que as pressões inflacionárias são formadas no exterior da realidade brasileira, no contexto da especulação sobre o dólar sobredesvalorizado cujos detentores correm para o paraíso especulativo em que se transforma a economia brasileira.