Amorim copia Platão e Chacrinha

Quais são os interesses nacionais que o ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, ressaltou para justificar a posição brasileira de aceitar uma acomodação com a posição americana e européia, provocando a ira da Argentina e insatisfação da China e da Índia, na rodada semi-fracassada da OMC para discutir o acordo de Doha?
Jogou com Platão, mas, também, com Chacrinha. Destacou, como faz o autor de A República,  que não existe nem o bem nem o mal, mas o bem e o mal em processo interativo, no qual ambos são relativos, flexíveis. Abriu-se às controvérsias em nome do interesse nacional. Pareceu Chacrinha, que disse que veio ao mundo não para explicar, mas para confundir.
Teria o presidente Lula se rendido ao canto de sereia de Tio Sam, de contornos indefinidos?
Ou estaria o Brasil se transformando em aliado mais qualificado para os interesses das grandes potencias, graças ao seu potencial econômico diferenciado em forma de energia – petróleo, alimentos, minérios, biodiversidade – , cujo preço se sobrevaloriza, para se transformar em ator de primeira grandeza?
O Brasil teria abandonado as acomodações com o Grupo dos 20, para jogar forte contra o grupo dos 8, a fim de obter concessões, se não tivesse sido atraído por uma vantagem cuja característica seria tornar a posição brasileira mais destacada no cenário internacional? Do contrário, qual a vantagem?
A cobiça sobre as riquezas brasileiras estão no ar. Na semana passada, o site online do Clarin, de Buenos Aires, anunciava matéria especial sobre as descobertas do petróleo no Brasil, que o tornaria um dos grandes del mundo. O primeiro ministro inglês, Gordon Brown, e o primeiro -ministro frances, Sarkosi, se transformaram em simpáticos à entrada do Brasil no grupo dos 8.
A mídia internacional demonstra que o novo ativo que valoriza nos mercados internacionais são as ações brasileiras, especialmente, as terras. A mãe terra volta a ser a âncora do investidor, como nos tempos fisiocráticos, que se afirmam diante da volatilidade monetária especulativa-destrutiva.
Essa força brasileira expressiva teria promovido negociações estratégicas que levariam o governo Lula a uma acomodação com a Europa e os Estados Unidos que se sintonizaria com o interesse nacional relativo a um salto qualitativo da economia brasileira de emergente para grande, com respectivo acento no Conselho de Segurança da ONU, antiga reivindicação verde-amarela?
O Itamarati, já disseram, não improvisa. Celso Amorim ficou na muda, não disse qual o grande interesse nacional falou mais alto para que aceitasse a proposta acanhada da negociadora americana e do negociador europeu, invertendo posição nacional favorável aos emergentes, no sentido de radicalizarem contra americanos e europeus.
O enigmático está no ar. O sonho de o respeito internacional render-se à grandeza nacional, ancorada em riquezas infinitas, que se sobrevalorizam no reinado do dólar que se sobredesvaloriza, teria sido a motivação maior da guinada brasileira ou a jogada nacional não passou de um rendimento aos cantos da sereia de Ulisses?
Platão comparaceu ao raciocínio de Celso Amorim para relativizar tudo e permitir um salto triplo da diplomacia da flexibilidade. Tratou a indefinição das discussões como oportunidade de jogar com o bem e o mal ao mesmo tempo, jogo cujas regras são sempre aberturas para novas e seguidas regras, que se confundem com a falta de regras. O dito pelo não dito, como no reinado de “Alô, Teresinha!”.
Resta saber como ficarão os propósitos de criação da Unasul- união das nações sul-americanas – depois que a posição brasileira constrangeu geral os aliados, que não imaginavam que  Lula, o velho negociador metalúrgico nas greves do ABC, tinha uma carta na manga e não disse a ninguém, colocando o interesse nacional em primeiro lugar.