Lula segue lição de Ruth

Morta, na terça, 24, de arritmia cardíaca, aos 77 anos, Ruth Cardoso, antropóloga socialista marxista, nascida em Araraquara, em 19 de setembro de 1930, criadora e gestora do programa Comunidade Solidária, no Governo FHC, 1995-2002, deu pontapé histórico na virada das políticas governamentais, que passaram a trabalhar a superação da fome, no Brasil, como estratégia de economia política para impulsionar a política econômica.

Lula, com o programa Bolsa Família, segue lição dela, que poderia ter chegado à Presidência da República, se FHC tivesse antevisto o poder político-eleitoral do solidarismo comunitário e a lançado sua sucessora, para enraizar o PSDB nas massas, algo ainda não materializado, historicamente. Teria, talvez, pintado a Evita Peron Cardoso nacional consagrada nas urnas.

Tratou-se de alternativa que iniciou, lentamente, a tarefa capaz impulsionar o capitalismo nacional, livrando-o dos perigos agudos das crises deflacionárias-inflacionárias crônicas decorrentes do subconsumismo propulsor de derrocadas cambiais. Estas foram responsáveis por desmoralizar a moeda nacional e levar o país às recorrentes instabilidades políticas, econômicas e sociais, que balançaram e derrubaram governos, instaurando ditaduras, fragilizando e atrasando processos democráticos.

Os programas sociais, até então trabalhados como assistencialismos populistas, na linha do Programa Legião da Boa Vontade, substituído pelo Comunidade Solidária, a partir de 1995, passaram a exercer papel de estabilizador da inflação. Ao elevarem o consumo interno, por meio de ampliação do poder de compra dos miseráveis, dotados de cartão de crédito, evitaram as repetidas sobredesvalorizações cambiais, baixadas para ampliar as exportações, como forma de diminuir os estoques inconsumíveis.

Antes, os empresários, sob pressão dos estoques altos, impossibilitados de serem consumidos, graças ao crônico subconsumismo nacional histórico, corriam aos governos em busca de depreciações da moeda nacional.

O resultado, invariavelmente, era pressão inflacionária. A taxa de câmbio, ajeitada pelo governo, para permitir desova dos estoques, elevava os preços, corroia os salários, agitava os sindicatos. Impulsionava, enfim, a corrida preços-salários. A instabilidade econômica se transformava em norma cujos efeitos eram, consequentemente, tensões sociais e desestabilizações políticas.

Com os programas sociais, ganhando impulso, a situação começou, gradualmente, a mudar. Primeiro, timidadamente, com FHC, por meio da orientação social, imprimida por Ruth Cardoso ao Programa Comunidade Solidária; posterioremente, com Lula.

Nascido, no Brasil, na Universidade de Campinas; copiado pelo ex-governador Cristóvam Buarque, quando governador do Distrito Federal; semente do Programa Renda Mínima, proposto como projeto de lei pelo senador Eduardo Suplicy(PT-SP), copiado, por sua vez, de ideólogos americanos liberais, o Bolsa Família se afirmou como política governamental indispensável ao sistema capitalista nacional.

Ruth Cardoso, autora de teses antropológicas sobre o desenvolvimento econômico, social e político dos emigrantes japoneses, intelectual de peso específico próprio e respeitada pelos trabalhos acadêmicos que realizou, colocou em prática modalidade de promoção social gestada pela necessidade de preservar o próprio capitalismo.

Enxergou-a como atenuante indispensável ao sistema contra sua tendência natural à sobreacumulação de renda e capital, cujas consequências, como destacou Marx, são crônica insuficiência de demanda global. Ruth Cardoso aprendeu a lição do autor de “O Capital”: “Produção é consumo. Consumo é produção”. Ambos se interagem dialeticamente.

O presidente Lula, como a prática demonstra, intensificou ação nessa linha, fomentando os investimentos sociais. Deu virada histórica capaz de impulsionar o consumo interno, conferindo, por meio do Programa Bolsa Família – extensão quantitativa relativa ao Comunidade Solidária – maior poder de compra aos miseráveis.