Fuga desenfreada do problema

Krugmam foge pela tangente, induzindo muitos jornalistas de economia a fazer o mesmo. Escapa de olhar para dentro do seu próprio país, cuja moeda está deixando de ser equivalente monetário internacional.

O economista americano, adorado principalmente, pelos economistas que armaram o Plano Real, no tempo de FHC, olha o panorama econômico mundial como Keynes observou-o no seu tempo, preocupado com a possibilidade de a libra esterlina perder peso específico para o dólar americano. Krugmam sente certa nostagial do dólar outrora poderoso, assim como Keynes sentia o mesmo relativamente à moeda inglesa.

Afetado pela crise de 1929 e empobrecido pelas guerras, o poder britânico, dominante no século 19, entrou em derrocada, especialmente, segundo Keynes, por ter apostado em valorizações da moeda inglesa, como forma de conquistar o antigo poder, na tentativa de mantê-la forte frente ao ouro, padrão-ouro.

O grande economista britânico, em 1944, em Bretton Woods, tentou a cartada de criar uma moeda internacional, o Bankor, fruto de conjugação de cestas de moedas, para fixar novo padrão monetário no pós-guerra. Tio Sam, forte depois do conflito bélico internacional, disse não às pretensões do lorde, autor do consagrado “Teoria geral do juro e da moeda” e “Consequências econômicas da paz”. Os primos britânicos ficaram para trás frente aos americanos.

Krugmam sabe que sob o capitalismo pós-29, o poder monetário depende da saúde financeira dos governos, algo que começou a afetar os Estados Unidos. A nova Roma balança e seu economista vacila.

O dólar, depois de Bretton Woods, ditou as regras da divisão internacional do trabalho. Os Estados Unidos, com sua moeda sem lastro, entrariam em deficit para importar dos países aliados, fragilizados na guerra, sujeitos ao perigo do comunismo internacional. Em compensação, ganhariam na senhoriagem monetária global, enquanto, com essa vantagem, punham em marcha a economia de guerra, para bancar a guerra fria contra a União Soviética.

Os deficits americanos foram expressões de gastos governamentais da ordem de 15 trilhões de dólares com a guerra fria, segundo o Instituto Pew. Ou seja, foi a estratégia guerreira keynesiana – a expansão monetária garantida pela capacidade de endividamento público americano – a nova arma para promover a reprodução do capitalismo, que havia entrado em crise em 1929.

Chegara ao fim o dinamismo capitalista sustentado na produção de bens duráveis, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, um dos livros mais importantes de economia política, escrito no século 20(editora Campus, 1980, prefaciado por Edmar Bacha).

Infelizmente, para Tio Sam, tal jogada, de bancar a reprodução capitalista via moeda estatal inconversível keynesiana, chegou aos seus limites, barrados pelo excesso de deficits públicos gêmeos, orçamentário e comercial. Estes, antes, solução, agora, viraram problema. Detonam crises monetárias e derrocadas bancárias, extrapolando para explosão de preços de matérias primas das quais dependem a produção manufatureira global.

Claro, os pobres, depois dos programas bolsas famílias, comunidade solidária etc, passaram a comer mais e, com isso, transformaram-se, nos países capitalistas periféricos, em estabilizadores da inflação, na medida em que mais consumo evitou desvalorização cambial para elevar exportação, em decorrência do subconsumismo crônico histórico predominante neles.

Mas, mais consumo dos pobres, no entanto, como ocorreu no Brasil, não geraria mais inflação decorrente de sobredeavalorizações monetárias, mas menos pressão inflacionária, graças à valorização monetária, isto é, o inverso. Não se observa que aumento do consumo americano tenha gerado inflação incontrolável. Pelo contrário. Agora, que ele está caindo é que a inflação está aumentando. Sendo o maior consumidor mundial de matérias primas, certamente, tal desaquecimento geraria menos e não mais inflação. No entanto, a inflação sobe, enquanto o dólar cai. Por que?

Essa derrocada estrutural do dólar não está sendo considerada, para valer, ainda, pelos economistas americanos e, consequentemente, pelos analistas econômicos da grande mídia, seus seguidores.