Junta militar dá xeque mate na agiotagem do mercado

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Ataque à especulação com a dívida

A junta militar  que realmente está governando quer que o ajuste fiscal recaia, também, sobre o mercado financeiro; ela não acredita totalmente no diagnóstico ultraneoliberal de Paulo Guedes de que o foco da crise é a previdência social; para os militares o centro da discussão é a agiotagem financeira sobre a dívida pública; são mais de R$ 400 bilhões só de juros/anualmente; quantia muito maior que o déficit da previdência, na casa dos R$ 200 bilhões, pelas contas oficiais, amplamente, contestadas por CPI no Congresso; os juros impactam como bombas atômicas sobre a dívida, elevando seu custo a uma taxa de sacrifício crescente para a sociedade.

Atacar a agiotagem sobre a dívida resultaria em mais poupança para o governo gastar no social, alavanca do consumo, que representa 65% do PIB; sem criar consumidores, não haverá arrecadação para pagar os juros da dívida; a previdência seria dependente da solução do endividamento estatal; se o governo pagasse menos juros, teria mais recursos para investir nas forças produtivas, multiplicando arrecadação, combustível para sustentar previdência.

Reduzir juro é desenvolver, desenvolver é reduzir juro.

Seria saída para novos investimentos a remoção da agiotagem financeira especulativa, na avaliação da junta militar, cujos personagens principais são o vice presidente general Mourão, o general Heleno, comandante da espionagem e inteligencia, e o ex-comandante do Exército, general Villas Boas, reconhecidamente, nacionalista.

O consenso na junta militar, que assessora presidente Bolsonaro, é o de que dívida estrangula crescimento; 40% do total do Orçamento Geral da União de R$ 2,6 trilhões, realizado no ano passado, são abocanhados  por ela; nesse cenário, não se pode apostar em reforma da previdência que a destruirá, se a economia continuar parada; os dados da previa do BC de que o PIB, em 2018, cresceu meros 1,05%, é a ameaça maior à previdência; ela morreria de inanição tributária.

Quem ganha, nesse cenário, são os especuladores: os juros sobre a dívida inviabilizam  todos os investimentos produtivos; os lucros das empresas estão sendo realizados nas aplicações financeiras e não no consumo; os juros superiores ao dobro da inflação enforcam a economia.

Menos juros mais investimentos

O general Mourão colocou em pauta repactuação da dívida entre governo e mercado financeiro; o ritmo do endividamento massacra a economia real; o comércio entra em crise; a indústria não produz; o governo não arrecada.

Os militares  raciocinam que pagando menos juros e gastando mais no social e na infraestrutura poderá fazer desenvolvimento sustentável.

Os banqueiros sentiram cheiro de fumaça; por isso, já correm a propor redução da selic de 6,5% para 5,75%; tentam antecipar à pressão que já está crescendo dentro da junta militar de não suportar mais a sangria financeira patrocinada pela agiotagem bancária.

Os lucros dos  bancos cresceram em média 20% ao ano, enquanto a economia real não alcançou 2%; sangrou-se economia real para sustentar lucratividade fictícia especulativa bancária sobre a dívida pública.

Conclusão da junta militar: o financiamento especulativo da dívida é a maior fonte de déficit público, que inviabiliza desenvolvimento sustentável; melhor seguir Delfim Netto, que impunha ordem à taxa de juro, na base do congelamento.

Delfim dá as cartas

A  disposição dos banqueiros de reduzirem a selic é reconhecimento tácito de que a crise real não está no  o lado social da economia, inclusive, previdência social; o lado perverso é o da especulação financeira sobre a dívida; por que não atacá-lo como raiz do desajuste fiscal?

A  semana começa com o Banco Itaú propondo redução da selic, para não sufocar  financeiramente o governo Bolsonaro; a  banca corre para não ser pega de surpresa; a batalha poderá ser, de agora em diante, saber qual juro bom para a economia retomar desenvolvimento.

Pensamento desenvolvimentista de Delfim entra em confronto com ultraneoliberalismo especulativo de Paulo Guedes.

 

 

Crise capitalista bombeia socialismo

O sonho não acabou

The Economist, mais importante revista de economia do mundo, debate, como matéria de capa, nessa semana, o retorno do socialismo, como alternativa à crise do capitalismo, antevista pelos especialistas em geral, diante da crise do estado keynesiano, atolado em dívidas, incapaz de continuar puxando demanda global capitalista; ensaia-se novo colapso semelhante ao de 2008, que jogou por terra as finanças públicas como motor desenvolvimentista, depois que, em 1929, a economia de mercado, o lassair faire, entrou em bancarrota.

Em 2008, o sistema não incendiou porque o BC americano, dominado pelos banqueiros, correu para salvá-los; estavam abarrotados de papeis bichados; recolheu-os, rapidamente, por meio de megas expansões monetárias, emissões de papeis novos, para substituir os antigos, que apodreceram; na sequência, ditaram aos devedores, encharcados de moeda podre, terapias ultraneoliberais, tipo essa que Paulo Guedes capitaneia, no Brasil; a palavra de ordem da banca aos devedores foi entregar tudo, como resgate da conta de juros e amortizações; tal estratégia exige, sobretudo, destruição do Estado nacional e retorno à ordem neoliberal, apoiada no padrão ouro, século 19, no lassair faire; o problema é que essa saída deixou, já no final do século 19, de ser funcional, pois levara o capitalismo à crise de 1929. A proposição dos banqueiros, em 2008, portanto, seria, para a humanidade, voltar ao útero materno; só Freud explicaria.

Volta ao padrão ouro

Durante o século 19, o capitalismo, como destacam Marx, Malthus, Hobson, Dobb, Hilferding, Lenin, Keynes, Mandel etc, desenvolveu-se por meio de dois departamentos complementares, que entraram em colapso na crise neoliberal de 1873-1893: departamento I, produtor de bens de consumo, e departamento II, produtor de bens de produção(máquinas para produzir máquinas); ambos se sustentavam, no plano macroeconômico, no padrão ouro, no equilibrismo orçamentário; quem gastasse além das reservas de ouro disponíveis, lastro para emissão de moeda, tinha de cortar salários, em obediência à lei de Ricardo dos rendimentos decrescentes, nascida quando a renda da terra ditava ritmo da taxa de acumulação capitalista; as terras novas, mais distantes dos centros de consumo, impunham custos mais altos; para compensá-los, os capitalistas reduziam salários, para manter constante sua taxa de lucro.

Porém, no capitalismo industrial, pós-Ricardo, embora os rendimentos fossem, ao contrário, sistematicamente, crescentes, como novo fator de acumulação do capital, devido ao aumento da produção e da produtividade, dada pelo avanço tecnológico, continuaram os dois departamentos, I e II, conduzidos pela lei ricardiana, que, naturalmente, levou o sistema a sua máxima contradição: acumulação de riqueza, de um lado, e pobreza, de outro; confirmou-se, então, a pregação de Marx:

“A razão última de todas as crises reais é sempre a pobreza e restrição ao consumo das massas em contraste com o impulso da produção capitalista a desenvolver as forças produtivas como se estas tivessem seu limite apenas na capacidade absoluta de consumo da sociedade. “

Resultado: o sistema, organizado pelos dois departamentos I e II, sob padrão ouro, marcharia, inexoravelmente, para a insuficiência crônica de consumo, bombeadora de deflação, maior inimiga do capitalismo, segundo Keynes. Optar pela deflação, ou seja, pelo equilibrismo orçamentário neoliberal, pelo lassair faire, seria, segundo o autor de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, erro eterno; afinal, foi ele que, depois da crise neoliberal de 1873-1893, impulsionou os movimentos revolucionários na Europa, o nascimento dos sindicatos, a pregação socialista, que desembocaria na revolução comunista russa de 1917 etc.

Nasce departamento III: economia de guerra

O colapso de 29 representaria corolário do padrão ouro equilibrista imposto pelo lassair faire, afogado no subconsumismo antevisto por Marx, em seu diagnóstico, segundo o qual o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver, dialeticamente, as forças destrutivas, na guerra, a partir de novo padrão monetário, ditado pelo Estado, que ele não desenvolveu, mas, apenas, esboçou; essa tarefa ficaria para Keynes.

Diante da bancarrota deflacionária, expressa na queda violenta da produção dos departamentos I e II(bens de consumo e bens de produção), nasce o keynesianismo, cuja base é o deslocamento do Estado para o plano do consumo, a fim de puxar demanda global estagnada do lassair faire, mediante emissão de sua própria moeda, o state Money; o padrão ouro, a partir de então, como disse Keynes, viraria “relíquia bárbara”.

Evidenciou-se o colapso: os Estados Unidos, que possuíam, em 1929, frota de automóveis de 27 milhões de unidades e produção anual de 5 milhões de carros, passaram a produzir, em 1931, apenas, 900 mil; a crise se estende até 1943, quando a produção caiu para 700 mil; a produção de bens duráveis de luxo – automóveis, geladeiras, eletroeletrônicos e eletrodométicos – deixou de ser carro-chefe da demanda global capitalista.

Keynes, em 1936, sopraria no ouvido de Roosevelt:

“Penso ser incompatível com democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego –, salvo em condições de guerra; se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força.”

Materializa-se a pregação de Marx de que o capitalismo deixaria de ser dinamizado pelas forças produtivas, para dar lugar às forças destrutivas, na guerra; sai de cena as mercadorias(bens de produção e de consumo), para dar lugar às não-mercadorias(produtos bélicos e espaciais, consumidos por moeda estatal), como conceituou, genialmente, Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, 1980, Ed. Campus; o Estado consumidor keynesiano/malthusiano entra em cena, para: 1 – congelar os departamentos I e II, mantendo-os no reinado da escassez, de modo a evitar excesso de produção frente ao consumo, que leva à deflação, e 2 – muda, dialeticamente, o padrão de acumulação capitalista.

Aposentou-se, portanto, o padrão ouro(relíquia bárbara), substituído pela moeda estatal inconversível; a moeda perde, com Keynes, sua pretensa neutralidade macroeconômica, para ser, por meio da expansão da dívida, a dinâmica do capitalismo de guerra, cuja base de sustentação é a capacidade de endividamento estatal.

Ingenuamente, os neoliberais, ainda hoje, pensam que se acabar com a dívida(zerar déficit primário – receita menos despesas, exclusive pagamento de juros), elimina-se a crise(há, há, há)

Fim de uma época

A bancarrota financeira global de 2008 demonstrou o fim do fôlego keynesiano como carro-chefe do capitalismo global puxado pelos gastos americanos em produção bélica e espacial, cujo retrato falado é a construção de mais de 180 bases militares do império espalhadas nos cinco continentes.

Já nos anos 1970, o fôlego esgotado se prenunciava; os déficits, produzidos pela guerra do Vietnan, haviam, desde 1944, alcançado 140% do PIB; Nixon, pressionado pelos que tinham ouro depositado no Forte Knox, como a Alemanha de Willy Brant, decidiu descolar o dólar do ouro, deixando a moeda flutuar, selvagemente.

Acompanhava essa decisão imperial pregação pela liberação geral da circulação de capital financeiro pelo mundo, ancorado no dólar, deslastreado do ouro, mas lastreado nas bombas atômicas, no poder bélico e espacial em constante expansão; o colapso desse novo cenário, em 2007-2008, demonstraria a impossibilidade de continuidade eterna do remédio keynesiano; a dívida pública mundial alcançara os 65 trilhões de dólares, enquanto, no mercado global, a circulação de dólares e seus derivativos superava 700 trilhões de dólares.

Repeteco do crash de 1929, com muito maior virulência; assim como deixara de ser funcional produção de automóveis, para dinamizar a taxa de acumulação capitalista, porque preços foram ao chão, da mesma forma, emitir dinheiro em cima de mais dinheiro, apenas, desvalorizaria ainda mais, a própria moeda americana.

Inicialmente, os banqueiros recolheram as moedas podres, para emitir novas moedas, jogando-as, mais parcimoniosamente, na circulação; porém, a capacidade de endividamento dos estados, em escala global, para continuar esse jogo, deixou de funcionar; a moeda de Tio Sam se desvaloriza como desvalorizaram os carros diante da superprodução, virando moeda podre.

Quem vai comprar máquinas novas, para colocar no lugar das que estavam paradas?; quem vai emitir novas moedas, para substituir as que deixaram de ter valor?

Eis o dilema da nova crise global em marcha.

Blá, blá, blá neoliberal

A bancarrota do departamento III(gasto estatal), como carro chefe da demanda global, está á vista; os neoliberais, como Paulo Guedes, orientado por Chicago, pregam retorno aos departamentos I e II, como se essa etapa histórica não tivesse sido já ultrapassada há 88 anos; ora, o departamento III, como anteviu o excomungado Marx, surge, exatamente, para tirar os departamentos I e II da crise de realização de lucros, sob a economia de mercado, sob o lassair faire.

Sem o departamento III, os departamentos I e II não sobrevivem.

Acabar com o Estado seria solução ou mais problema?

A falta de saída do capitalismo tem deixado a classe média propensa ao fascismo, como aconteceu, no Brasil, na eleição de 2018; o mesmo ocorre, agora, na Espanha; em toda a Europa, a mesma ladainha; acena-se para a direita, como boia de salvação; essa alternativa, porém, é pura miragem; o capitalismo de guerra, que viera para salvar o capitalismo de mercado, entrou, também, em crise; abre-se, dessa forma, tempo de incerteza.

Não há, na proposição neoliberal, saída para o maior problema da economia: o desemprego, já na casa dos 20%, se for levada em consideração a massa de desalentados, que deixaram de procurar trabalho.

Os países capitalistas, atolados de desempregados, discutem direito de consumo; o ser humano deixa de trabalhar por falta de oferta de trabalho, mas não deixa de comer; continua consumidor; se não comer, entra em cena o mesmo dilema que o sistema entrara no final do século 19: reforma ou revolução?

O keynesianismo produziu a reforma, o estado do bem estar social; mas o esgotamento do Estado como produtor de dívida, que cresce no lugar da inflação, sinaliza nova crise.

Certamente, por isso, The Economist lança a discussão incômoda para os capitalistas: socialismo ou barbárie.

 

https://www.economist.com/leaders/2019/02/14/millennial-socialism

Economia na UTI: agiotagem ameaça Bolsonaro

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Economia respira por aparelhos

A prévia do PIB, divulgada pelo BC, ficou em 1,15%; economia respira por aparelhos; 60% do PIB nacional são serviços, consumo da população, que, em 2018, registrou queda de 0,1%, segundo IBGE; menos mal que em 2015, 2016 e 2107, quando caiu 3,6%, 5% e 2,8%, respectivamente. Em dezembro do ano passado, o consumo estava 11,4% abaixo do registrado em 2014; ou seja, bancarrota; os analistas esperam crescimento de 1% do PIB, no ano passado, e, na base do super-otimismo, chutam que, em 2019, pode alcançar 2%.

Enquanto isso, no compasso da inflação cadente, na casa dos 3,5%, 4%, os lucros dos bancos foram espetaculares; em seu conjunto, os 4 maiores bancos – Banco do Brasil, Santander, itaú e Bradesco – aumentaram em 20% sua lucratividade; o Santander registrou fantástico crescimento de 52,1%; Bradesco, 30,2%; Banco do Brasil, 22,2% e Itaú, 4,2%, segundo Economática Consultoria Financeira.

Qual a fonte inesgotável de lucro dos bancos?

Certamente, não é o consumo da população, que não reagiu; a resposta é clara, o lucro bancário advém não da economia real, mas fictícia; mais precisamente, os bancos faturam, absurdamente, graças à agiotagem praticada sobre a dívida pública, inesgotável fonte de lucro meramente especulativo, que não produz correspondência alguma relativamente ao crescimento do PIB; ou seja, quanto mais os bancos faturam, mais o povo se empobrece; clareza maior do que essa impossível, conforme demonstram dados levantados pela Auditoria Cidadã da Dívida.

Eles evidenciam pra onde está indo o grosso dos recursos orçamentários; as despesas financeiras(juros e amortizações) levam mais de 40% do total do Orçamento Geral da União, realizado em 2018; já as despesas não financeiras(gastos sociais que geram renda disponível para o consumo), os restantes 60%, descritos no gráfico abaixo, estão congeladas, desde governo Temer, por vinte anos, conforme impuseram os credores ao grande devedor governo federal; sacrifica-se o lado real da economia, que dá resposta à sociedade em forma de emprego, renda, produção, consumo, arrecadação e investimentos, para priorizar o lado fictício, que somente aprofunda recessão e desemprego.

Sangria especulativa acelerada

Os neoliberais, comandados por Paulo Guedes, teleguiado por Chicago, insistem naquilo que nenhum país capitalista desenvolvido adota mais, especialmente, depois da crise global de 2008, ou seja, achatamento do consumo em nome do combate à inflação; esta recua a cada mês, mas, em contrapartida não estimula novos investimentos; afinal, sem consumidor não há arrecadação, que leva o governo a aumentar investimentos; sem investimento público, os empresários não veem, diante de si, o que Keynes chamava de eficiência marginal do capital, isto é, o lucro; consequentemente, mantém-se adormecido o denominado espírito animal empreendedor.

O maior economia do século 20, Keynes, dizia que a única variável econômica verdadeiramente independente sob capitalismo é quantidade de oferta monetária que o governo emissor de moeda joga na circulação capitalista; quando faz isso, produz quatro movimentos simultâneos, que puxam a demanda global:
1 – eleva relativamente os preços de bens-salários;
2 – reduz, relativamente, a unidade de salário real;
3 – diminui os juros e
4 – perdoa dívida acumulada a prazo dos empresários.

Eis porque, como disse o autor de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, emerge, em tais circunstâncias, o espírito animal empresarial; sem ele, é o que se vê: paralisia econômica; ganham, apenas, os especuladores; danam-se, completamente, os trabalhadores.

Bolsonaro, nesse ambiente econômico, mantido por Paulo Guedes, dificilmente, cumprirá promessa de campanha eleitoral; corre, portanto, perigo de derrota nas próximas eleições.

https://www.correiobraziliense.com.br/…/apesar-de-a-economi…

https://www.correiobraziliense.com.br/…/brasil-cresceu-1-15…

Com Boechat rádio supera tevê

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Comoção popular

A impressionante repercussão imediata da morte, aos 66 anos, do jornalista argentino-brasileiro Ricardo Boechat, da Band, deu a medida exata do seu enorme talento desenvolvido plenamente em jornal, tevê e rádio, em diversas empresas: Diário de Notícias, Globo, JB, Estadão, Isto É etc; no rádio, porém, ele se superou, revelando-se comunicador fenomenal; demonstrou ser o rádio o veículo de comunicação de maior utilidade popular para expressar a capacidade criativa do profissional; sua empatia com o público se revelou completa, tornando-se extensão natural da vida e do sentimento das pessoas no exercício da própria existência diária.

No rádio, Boechat, por se soltar mais, extrovertida e vorazmente, ao lado do, igualmente, talentoso José Simão, provavelmente, seu sucessor, produziu interatividade comunicativa genial com a comunidade; construiu rede de informações, Brasil a fora, que lhe permitiu captar a alma nacional, sua graça,  seu tormento, sua angústia, seus interiores e exteriores tragicômicos etc.

Para Boechat, o ouvinte lhe reservava o melhor de si e as melhores estórias cotidianas, para ele transmitir do modo que somente ele sabia fazer; o ouvinte compreendia que, com Boechat, transmitindo seu recado, comentado com humor por Simão, ambos às gargalhadas, sentia-se pleno em seu desejo de ser talvez igual ao jornalista a se expressar como se pretendia expor, em toda a sua dramaticidade, sua indignação, alegria e tristeza.

Boechat, politicamente, conservador, sintonizado com orientação editorial da Band, à frente do seu programa diário, virou matéria obrigatória que produzia outras inumeráveis matérias obrigatórias, cheias de motivações capazes de preencher o dia a dia da população.

Os melhores momentos da cobertura da morte dele vieram, justamente, dos depoimentos dos populares, donas de casa, comerciantes, motoristas de taxi, profissionais liberais, homens e mulheres, ouvidos pela Band/Globo, ao longo do dia; parece que ele escolheu para morrer na hora que permitiu a exploração de toda a carga emocional popular com o momentoso acontecimento.

A construção da comunicação, realmente, maravilhosa com o público, com o qual mantinha, diariamente, preenchia vidas cheias, vazias, meio cheias e esvaziadas, dando-lhes motivos para explorar seus próprios inconscientes, numa rede interativa infinita.

Dizem que Boechat era depressivo, que se tratava ou se tratou com psiquiatras; seu ritmo frenético de trabalho, de manhã à noite, envolvido com a sua eterna paixão, a notícia, serviu, certamente, como a melhor terapia para curar seus tormentos interiores; seria uma grande tortura mental se não tivesse como extravasar tamanha inquietude, que o transformou em verdadeiro globetrotter da comunicação brasileira; ali ele expulsou seus deuses e demônios de que os humanos são construídos em sua dualidade intrínseca faustiana.

Dificilmente, pintará outro camarada comunicativo como ele, com toda a sua extroversão espetacular, sua capacidade de construir climas, tudo gerado a partir da dissecação da informação em seus detalhes e dimensões reproduzidas pelo turbilhão da multiplicação da voz popular; somente os craques são capazes de tal proeza.

Controvertido, produziu genialidades e barbaridades; escandalosa e cretina, por exemplo, foi a sua tirada machista e ridícula de que Dilma fazia visitas íntimas a Lula na cadeia; absurdo; também, exagerado foi o seu endeusamento – como da mídia em geral – da Operação Lavajato, conduzida pelo juiz Sérgio Moro, elemento ambíguo, dissimulado, que a história desvelará em sua grandeza e miséria, mais cedo ou mais tarde; afinal, ele lançou mão, no julgamento e condenação do ex-presidente, de delações premiadas e da teoria do domínio do fato,  em que suposições se sobrepõem às provas para incriminar alguém etc; tudo isso, porém, e muito mais, para o bem e para o mal, não empana a extraordinária arte de comunicar que Boechat carregava consigo 24 horas por dia.

A vida segue

Hoje, dia seguinte ao trágico acontecimento, o lamento é geral em todo o país com o silêncio da voz do grande comunicador; sua ausência produz a sensação de perda de uma joia preciosa que enchia os olhos de quem a possuía disponível, diariamente, para ser reproduzida em mil e uma variações, versões  e entonações, sempre acompanhadas de gargalhadas, dado o sensacional humor do artista.

A dupla Boechat-Zé Simão representou acontecimento capital da história do rádio e tevê brasileira.

Sobretudo, a impulsividade inerente a Boechat, dada pela vontade de comunicar o fato, vem da paixão e loucura pelo furo jornalístico que move todos os jornalistas em diferentes graus de intensidade, tornando-os, invariavelmente, presa da falsa sensação de onisciência ; é, como dizem os coleguinhas, produto da necessidade de ter de matar um leão por dia, para galgar postos nas empresas; ao lado disso, emerge o prazer indescritível de servir aquele prato quente gostoso aos ouvintes, aos leitores e telespectadores, cuja sensação, diante dele, é variada, podendo, inclusive, e quase sempre, ser de indiferença; certamente, não o é para o próprio profissional; frente ao concorrente, ou seja, o próprio colega de profissão, representa um triunfo impagável, que dá prestígio, honra e vaidade – e menos dinheiro do que merece.

A superioridade do rádio, nesse contexto, foi explorada, genialmente, por Boechat, que levou aos limites máximos a sua arte, como autêntico ginasta olímpico, colecionador de medalhas de ouro; rompeu barreiras do inconsciente para se comunicar; expressou-se, nesse sentido, mais pelos sentidos do que pela racionalidade, ou ambos combinados, quanto mais burilou sua capacidade de interagir com a população; por meio da sua inimitável voz, cheia de bossa, numa cadência bem brasileira, fez explodir, de várias formas, os corações dos seus e suas fãs.

Boechat fez e fará escola pela vida afora; os profissionais buscarão nele a exata medida do seu próprio talento, para reproduzir seus desejos de comunicar, extraindo de si suas próprias originalidades; como todo ser humano, não nasceu pronto; foi, pouco a pouco, se soltando e acabou, tal como Pelé, aquela enormidade profissional, fruto do desenvolvimento da própria essência natural que vem de uma simplicidade inata; somente se revela em seu fulgor maravilhoso ao longo de muito trabalho, muita suadeira, muita correria, muita renúncia, muita humildade, até que o rio, tormentoso, se pareça, enganosamente, manso, no transcurso de sua trajetória.

A consciência, como disse Hegel, é como pássaro de Minerva, só voa quando a noite cai; a noite caiu na hora do almoço para Boechat; sua morte, porém, revelou imensa claridade típica da capacidade brasileira de se superar e se fazer respeitar.

Viva o jornalismo.

Adeus, mestre.

 

Bolsonaro racha esquerda e acena conciliação conservadora

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Risco político 

O resultado das eleições da Câmara e do Senado demonstraram o vigor de uma tendência política historicamente definida no Brasil: a conciliação conservadora direitista autoritária; o projeto Moro, que configura estado policial autorizado a matar, é a expressão do autoritarismo conservador; o jogo começará na Câmara.
Os partidos do centrão bolsonaristas juntaram-se todos para apoiar Maia na presidência da Câmara; o Democrata aumentou seu cacife relativo, como representação do centrão, e, agora, é chamado para a nova tarefa: conciliação conservadora.
A esquerda, pelo que se viu, rachou na eleição parlamentar; PDT e PC do B foram para um lado… do bolsonarismo e PT, PSol, PS e Rede, num saco de gatos, ensaiaram samba enredo antibolsonarista ainda sem letra e sem ritmo, sujeitos às dissenções variadas.
Há ainda dentro da esquerda seu próprio racha; ele ficou expresso na decisão petista de liberar parlamentar para votação; essa posição fortaleceu Maia, ou seja, o bolsonarismo político em formação, no legislativo.
 

Maioria volátil

A maioria que apoiou Temer apoia, agora, de forma mais reforçada, Bolsonaro; esse movimento conservador foi capitalizado por Maia, mas pode ser volátil; não aceitará ser massa de manobra de Maia, salvo circunstancialmente.
Super-confiante, no entanto, Maia, ancorado nos seus 334 votos de uma vitória espetacular, foi ao delírio; previu que em dois meses terá maioria de 330 para aprovar reforma da previdência.
Seria novo Deus em plenário, com foco em entregar ao mercado financeiro previdência privada que aumente exponencialmente aberturas de contas bancárias com a capitalização previdenciária importada de Chicago pelo ultraneoliberal Paulo Guedes.
A autoconfiança tomou conta do eufórico Maia; ela subiu à cabeça dele; já cuida de confundir o total dos votos que obteve com a possibilidade de apoio numérico semelhante e equivalente para aprovar a reforma da previdência; superotimista e de olho grande em candidatura presidencial em 2022.
 

Repactuação federativa

Maia pregou no discurso da vitória a conciliação; conversará com todos os prefeitos e governadores; quer pactuar e repactuar tudo; sairia dessa tarefa política consagrado, se alcançasse o seu objetivo; isso o animou a fazer previsões super-otimistas.
Estaria o plenário inteiro sintonizado no objetivo político maior de Maia, sua candidatura à presidência da República?
O mercado o elevaria aos píncaros como salvador da pátria; mas terá que segurar a língua para não falar besteira; foi de lascar a tirada de pregar trabalho para os octogenários.
O pressuposto da conciliação é a aprovação da reforma da previdência, que se configura assalto à bolsa popular, já detonada pela recessão neoliberal de Temer que Bolsonaro promete continuar, em doses maiores.
Se o pressuposto básico para conciliação de Maia é a destruição do sistema social democrata do SUS, um dos maiores programas de distribuição de renda do mundo, o resultado poderá ser uma anti-conciliação; ou o repeteco histórico de sempre; a conciliação dos de cima contra os de baixo.
A supressão do SUS para transformar trabalhador em correntista da banca privada para fazer poupança futura de aposentadoria por capitalização, sujeita a chuvas e trovoadas do sistema capitalista em crise, sem nenhuma proteção do Estado, contribuirá para alguma conciliação satisfatória?

Ruas cheias à vista

A batalha política da previdência tende a encher as ruas de gente, famílias inteiras em passeatas etc; adiantaria pactuar apenas com prefeitos e vereadores, sem antes pactuar com a sociedade, cuja reivindicação básica é retomada do desenvolvimento com geração de empregos?
Tudo o mais é acessório; sem renda para consumir, o trabalhador desempregado morre rapidamente antes de cumprir prazos da previdência, tempo de contribuição e idade mínima; e não haverá arrecadação de impostos suficiente para novos investimentos; quem investirá em mercado sem consumidores?
A tarefa de Maia para pactuar politicamente os custos da reforma da previdência impõe sua própria dialética; a dualidade do real concreto em movimento de negação produzirá nova correção de forças.
Se as ruas se encherem contra o fim dos direitos previdenciários e do sistema de seguridade social, pintaria novo modelo de conciliação.
A luta política desenhará o resultado.